Grandes Diretores: Alfred Hitchcock – Parte 1

ALFRED HITCHCOCK: O CINEASTA QUE SABIA DEMAIS – PARTE 1/4

Hitchcock foi um dos primeiros diretores a chamar atenção para o seu papel na realização de um filme, fazendo do diretor a grande estrela do filme. Pela primeira vez o público se dirigia ao cinema para ver “um filme de Alfred Hitchcock”, independente do protagonista ser James Stewart ou Cary Grant. Parte disso deve-se à persona pública construída por Hitchcock, impregnada no imaginário mundial através do programa televisivo “Alfred Hitchcock Presents”, onde o diretor assumia um humor negro distinto e um tom de ironia macabro. Além disso, a maior parte de seus filmes contém uma rápida aparição de Hitchcock como figurante, uma espécie de assinatura lúdica.

Apesar da associação imediata geralmente feita entre Hitchcock e o suspense, o diretor regularmente visitava outros gêneros, como o terror (Psicose), a comédia romântica (Mr. and Mrs. Smith) e o humor negro (O Terceiro Tiro). Também ousava experimentar e procurar desafios, como ambientar um filme todo num pequeno barco (Lifeboat), criar um filme que aparente ser um grande plano seqüência (Festim Diabólico) e criar planos e movimentos de câmera inventivos que povoam toda sua obra.

A famosa silhueta do mestre do suspense escondia um gênio debochado, glutão e sem papas na língua

Sempre que o relógio batia seis horas da tarde, Alfred Hitchcock encerrava as atividades no estúdio e ia para casa. Certa noite, encontrou a esposa, Alma, fazendo o jantar. “Preparava um suflê e Hitch bateu as claras para mim”, lembra. “Ele observou como misturei o queijo e coloquei o pirex, delicadamente, no forno. Quando liguei o cronômetro, percebi que meu marido não tirava os olhos do forno.”

“Aqui está o drama”, cochichou ele, como se um tom de voz mais agudo impedisse o crescimento do suflê. “O que está acontecendo atrás daquela porta???” Finalmente, o relógio tocou. “O suflê estava perfeito – e meu marido uma ruína”, conta. “Nada mais de suflês”, anunciou Hitchcock, “ até que tenhamos um forno com uma porta de vidro”. Segundo Alma, antes de casarem, Hitch lhe escrevia longas cartas e depois as levava pessoalmente, pois, confessava, não suportava o suspense de esperar o correio entregá-las.

Em outra ocasião, Hitchcock estava no elevador de um grande edifício em Nova York. Ele relatava a um amigo o crime que, segundo afirmava, fora cometido sob suas vistas. “De repente”, disse ele, “o sujeito tirou uma faca do bolso…” Nisso, as portas do elevador se abriram e o senhor corpulento e o amigo saíram tranquilamente, deixando para trás um público ansioso por conhecer a continuação do caso. Hitchcock pregava mais uma de suas peças favoritas: deixar a plateia na mais pura tensão. Ele dizia que jamais faria um filme sobre a Gata Borralheira, porque “todo mundo esperaria encontrar um cadáver na carruagem”. Quando perguntavam qual era a sua missão, ele respondia: “Aterrorizar as pessoas”. Definitivamente, não faz sentido: como um homem que não aguenta nem esperar um suflê ficar pronto pode ser o mesmo sujeito em cuja mente borbulham histórias de tirar o fôlego? Como pode ter dedicado a vida ao suspense, se ele próprio não suportava surpresas? Não se sabe a resposta. Talvez nem ele mesmo soubesse. Mas o fato é que Alfred Hitchcock não ganhou o título de “mestre do suspense” por obra do acaso.

Este sujeito baixinho, balofo, de fala mansa e um ar contagiante de tranquilidade foi o criador de pérolas do gênero como “Janela Indiscreta”, “Intriga Internacional”, “Um Corpo que Cai”, “Psicose”, “O Homem que Sabia Demais” e uma lista de cinquenta filmes que entraram para a história do cinema como prova de que não é preciso sangue nem violência para deixar a plateia de olhos abertos. “Suspense não é a manipulação de material violento”, explicava, “mas sim a dilatação de um período de tempo, o aumento de uma pausa, a ênfase em tudo o que faz nosso coração bater mais depressa”. E assim ele fez, aumentando o ritmo cardíaco de seus fãs por 55 anos. Ele teve muitos discípulos, mas seu título permanece intocado. Passados quase 30 anos de sua morte, nenhum outro cineasta se candidatou a conquistar sua posição. Ou melhor: não conseguiu.

Quando ainda era Alfred Joseph Hitchcock, um menino de quatro anos, já tinha o aspecto roliço, motivo de provocação dos irmãos, William e Nellie. Desde pequeno, ele mostrava um nítido gosto por brincadeiras mórbidas, entre elas assustar seus coleguinhas de escola amarrando bombinhas em suas calças ou jogar ovos nas janelas das casas dos professores jesuítas. Quando um padre furioso pedia explicações, Hitch dizia com olhar inocente: “Acho que foram os pássaros”. Como punição por ter chegado mais tarde em casa, o pai mandaria o menino Hitchcock, carregando um bilhete, para uma delegacia próxima. O delegado (que era amigo do pai de Hitch) leria o bilhete e deixaria o apavorado menino alguns minutos preso numa cela do distrito, dizendo as seguintes palavras ao soltá-lo: “Veja o que pode acontecer, se não fores um bom menino”. O terror que passou o menino iria refletir-se na sua obra cinematográfica na forma como os policiais seriam retratados nos seus filmes.

Extremamente tímido, ele não era de muitos amigos. Sempre gostou de viajar – e por isso adorava filmar em locação -, mas enquanto garoto se satisfazia em cabular aula e passear de ônibus pela cidade. As travessuras eram punidas severamente. O pai, Frank, era um católico fervoroso que criou os filhos com rígida disciplina e não hesitava em soltar a mão em quem saísse da linha. Hitch nasceu em 13 de agosto de 1899, no subúrbio londrino de Leytonstone, Essex, e teve uma infância feliz, longe da miséria. Frank herdara uma loja de verduras, perus e galinhas, o que garantiu o sustento e a educação dos filhos. A mãe, Emma, era superprotetora. Quando perdeu o pai, aos quatorze anos, Hitch se tornou ainda mais fascinado por ela. “Emma não saía do quarto se não estivesse arrumadinha.” Com a mãe, ele aprendeu os segredos da cozinha. Regime nunca foi o seu forte: “Certa vez, olhei-me no espelho e dei um berro de horror. Desde então, limito-me a comer somente três pratos nas refeições: aperitivo, peixe, carne e apenas uma garrafa de vinho”, zombava o glutão. Apetite era o que não lhe faltava.

Os pais, embora conservadores, apreciavam artes e levavam os filhos ao teatro e ao cinema. “Gostava mais das produções americanas do que das inglesas e lia todas as publicações sobre cinema”, revela. Em casa, passava horas diante do mapa-múndi, marcando os deslocamentos dos navios britânicos durante a Primeira Guerra Mundial. Hitch adorava desenhar, e a mãe concluiu que seria engenheiro. Sempre obediente, ele estudou tanto engenharia como artes. Na época, trabalhou numa agência de publicidade e, depois, na Companhia Telegráfica W.T. Henley. Lá, dedicava-se a ridicularizar os chefes, inspirando-se neles para criar grotescas caricaturas. Despedido, arranjou finalmente emprego que tanto queria. Era 1920, quando foi contratado pela Famous Players Lasky (subsidiária inglesa da Paramount) como desenhista e redator de títulos e legendas dos filmes mudos.

De todas as lições que aprendeu na escola jesuíta Santo Inácio, Hitchcock guardou uma delas para sempre: o medo. “Aprendi a ter medo, muito medo.” Tornou-se um expert no assunto. Justificava o sucesso de seus filmes pela sensação que provocavam. “Acha que as pessoas desejam sentir medo?” perguntavam a ele. “Não o medo das coisas reais, mas daquilo que, de uma forma ou de outra, elas sabem que não existe”, explicava. Segundo o cineasta, a mania pelo terror tem origem em histórias infantis. “Chapeuzinho Vermelho é canibalístico. Nós crescemos ouvindo contos assim – e adoramos”, exemplificava. “Sabia que meus filmes funcionavam quando ouvia o riso nervoso da plateia.” As risadas, na verdade, vinham de cenas cômicas inseridas propositalmente. “Se não der oportunidade à audiência para rir, ela rirá da mesma forma, porque não aguentará a tensão”, justificava. “É melhor colocar umas piadas para aliviar do que vê-la rindo nas horas erradas.”

Hitchcock se irritava profundamente quando diziam que seus filmes eram de mistério. Explicava que o mistério provém da supressão de uma informação, enquanto o suspense, ao contrário, da comunicação desse dado. “Se explodirmos repentinamente uma bomba numa sala com dez pessoas, a emoção durará dez segundos. Mas anuncie que uma bomba irá explodir e o suspense durará até o fim.” Hitch sabia do que falava, basta lembrar de “O Marido Era o Culpado”, em que um menino percorre Londres de ponta a ponta carregando um embrulho sem saber que se tratava de uma bomba. O espectador, no entanto, sabe de tudo. Anos mais tarde, Hitch faria uma autocrítica, arrependendo-se da cena em que o garoto morre. “Foi um anticlímax”, admitiu. Mas corria o ano de 1936, e o jovem diretor ainda estava começando a dar seus passos rumo à genialidade.

Hitchcock começou a carreira como uma espécie de faz tudo. Trabalhando com roteiristas e diretores, ele conheceu os mecanismos do cinema. Em poucos meses, escrevia roteiros, atuava como diretor de arte e até dirigia cenas nos filmes dos outros. Arriscou-se na direção ao terminar “Always Tell Your Wife” para o diretor Seymour Hicks, que adoecera. Tentou dirigir e produzir “Number Thirteen”, mas o dinheiro acabou e o filme ficou pela metade. Em 1925, finalmente concluiu “The Pleasure Garden” e conseguiu uma crítica entuasiasmada do Daily Express: “Um jovem com a mente de um mestre”.

Foi em “O Locatário”, inspirado nos crimes de Jack, o Estripador, que suas marcas apareceram pela primeira vez. Aos 27 anos, Hitch já se mostrava preocupado com angulações mais criativas de câmera, fusões, cortes originais e muito suspense. O filme também inaugura um de seus temas favoritos: o homem comum, perseguido e acusado por crimes que não cometeu. Retomaria a ideia em produções como “Pacto Sinistro”, “O Homem Errado”, “Sabotador” e o imbatível “Intriga Internacional”. Seus vilões também eram diferentes. “Já se foi o tempo em que se projetava uma luz verde quando o malvado entra em cena”, falava. “Prefiro fazê-los afáveis, bem-humorados, com apenas algum indício que transmita dúvida: sapatos de duas cores, o hábito de palitar os dentes com um alfinete de diamante para gravatas ou a falta de um dedo na mão”. Hitch transformava coisas simples, como uma chave ou um isqueiro, em objetos causadores de aflição ou de repugnância.

Neste filme, que o próprio Hitch considerava o “primeiro filme de Hitchcock”, o diretor pôde usar o que tinha aprendido dos expressionistas e do cinema soviético, apresentando um conjunto de imagens e suspense até então nunca vistos no cinema britânico. Apesar das dificuldades, pois “The Lodger” quase foi engavetado (os produtores temiam que sua temática afastasse o público), o filme, depois de lançado, foi um imenso sucesso e aclamado como o melhor filme inglês já feito até então.

“O Locatário” também foi o primeiro filme em que fez sua tradicional aparição. “Era uma cena de multidão e não havia extras suficientes, então fiz uma ponta”, revela. “Mais tarde, tornou-se uma superstição, depois, uma brincadeira, para enfim se tornar embaraçoso, já que tinha de aparecer ostensivamente nos primeiros cinco minutos de fita, senão o público não assistia ao filme tranquilamente.” Sempre vestindo o impecável terno e gravata, Hitch seria visto bebendo champanhe com Claude Rains em “Interlúdio”, de perfil consultando uma médium em “Trama Macabra”, esperando sua vez ao lado de uma cabine telefônica em “Rebecca”, ouvindo um discurso do governador em “Sob o Signo de Capricórnio” e assim por diante.

Depois do sucesso de “The Lodger”, Hitchcock foi criando uma série de sucessos, tendo, inclusive, o privilégio de dirigir o primeiro filme sonoro inglês, “Chantagem e Confissão” (“Blackmail”, 1929). Neste filme Hitch mostrou sua genialidade cinematográfica, pois a presença do som criava novos problemas para o até então cinema mudo, problemas estes que o diretor solucionou, aprimorando a linguagem do cinema. “Chantagem e Confissão” começou mudo, pois o filme já estava sendo realizado, sendo que o som foi incorporado no decorrer das filmagens. Hitch não gostou da voz da atriz principal, Anny Ondra, mas uma grande parte do material já estava filmado, o que impedia uma substituição. Para solucionar o problema, Hitch colocou a voz de Joan Barry no lugar da voz de Ondra, numa dublagem perfeita, considerando-se o momento.

Foi ainda na sua fase inglesa que Hitch criou o termo “MacGuffin” para especificar seu desprezo pelas razões vitais dos personagens para a ação. De acordo com o próprio Hitchcock: “De onde vem o termo MacGuffin? Isso evoca um nome escocês e se pode imaginar uma conversa entre dois homens em um trem. Um diz ao outro: “O que é esse pacote que você colocou na sacola?”. O outro: “Ah, isso! É um MacGuffin”. Então, o primeiro: “O que é um MacGuffin?”. O outro: “Pois bem! É um aparelho para apanhar leões nas montanhas Adirondak”. O primeiro: “Mas não há leões nos Adirondak”. Então, o outro conclui: “neste caso, não é um MacGuffin”. Essa anedota mostra-lhe o vazio do MacGuffin… o nada do MacGuffin.”

Depois de “The Lodger” e “Blackmail”, Hitchcock já gozava do prestígio do público e da admiração dos críticos ingleses, e seu nome começava a atravessar o Atlântico. Mas a sua chamada “fase inglesa” ainda ganharia obras-primas do porte de “The Thirty-Nine Steps” (1935) e “Young and Innocent” (1937), onde Hitchcock exercitou um dos temas que lhe era favorito: o inocente perseguido, pois seus heróis são sempre acusados injustamente, perseguidos pela polícia e pelos inimigos, enquanto atravessam o país tentando provar sua inocência. Porém, o seu melhor exemplar desta época, ainda é “O Homem que Sabia Demais”, de 1934. Embora seja um thriller, o que se assiste é um drama familiar em que os pais apenas pretendem salvar a sua filha, sequestrada por criminosos que pretendem assassinar um político estrangeiro. A grande mestria de Hitchcock é transformar uma história simples num interessante filme de suspense, onde tudo contribui para prender a atenção do espectador. O filme marcou a estreia de Peter Lorre (“M – O Vampiro de Dusseldorf”) na Inglaterra, mas o ator não falava uma única palavra de inglês e teve de aprender os seus diálogos através do som, mas mesmo assim consegue uma extraordinária interpretação: o terrível chefe dos assassinos. As comparações com o remake que Hitchcock filmaria em Hollywood são inevitáveis e muito embora a versão de 1956 seja mais elaborada, não consegue atingir o interesse do original.

Porém, no final da década de 30, a Inglaterra se preparava para entrar em guerra com a Alemanha, e estava cada vez mais difícil conseguir verbas para filmar, além do desinteresse de público e da crítica, devido às preocupações sociais pela ameaça que pairava no horizonte. O convite do chefão David O. Selznick para filmar em Hollywood veio na hora certa para Hitchcock. “A Dama Oculta” foi o filme que encerrou a sua fase inglesa. Com elegância e extrema habilidade, o cineasta filma sua história durante uma viagem de trem, em que uma passageira faz amizade com uma senhora idosa, e quando ela desaparece, tenta solucionar o mistério.

Para ler a Parte 2 clique aqui

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