Ciclo o Expressionismo Alemão: Fausto (1926)

FAUSTO
Título Original: Faust – Eine deutsche Volkssage
País: Alemanha
Ano: 1926
Duração: 116 min.
Direção: F.W. Murnau
Elenco: Gusta Ekman, Emil Jannings, Camilla Horn, Wilhelm Dieterle, Yvette Guilbert.
Sinopse:
Fausto é um alquimista que faz um pacto com o Diabo, dando-lhe a sua alma em troca de conhecimento sobre todas as coisas do mundo, mas se apaixona por uma moça, Margarida, e tenta desfazer o acordo.

Um dos mais importantes exemplares do expressionismo alemão, pelas mãos de um dos mais prolíficos cineastas de todos os tempos, esta impressionante adaptação do poema “Fausto” de Goethe sobre o conflito entre a paixão e a lógica ganha visual gótico admirável, clima sombrio e narrativa inspirada, graças à utilização de recursos de closes e planos até então raramente usados. O filme, último de Murnau em seu país de origem antes de mudar-se para os Estados Unidos, é carregado de um idealismo algo ingênuo, quase datado, mas a razão fica a dever-se mais ao tratamento do tema do que a qualquer outra coisa: para a época, quando mal estavam desenvolvidas as técnicas da fotografia e de luz e sombra, a capacidade de encenação e o enquadramento dos grandes planos, das cenas e movimentos de multidão – tudo faz desta obra uma realização pioneira, e de mestre. Murnau retira da lenda e da obra de Goethe apenas o que lhe convém para uma narrativa poética que se deseja de grande intensidade dramática. Tinha havido versões e experiências anteriores – dos irmãos Lumière e de Georges Méliès na França, em finais do século XIX, bem como na América: um Fausto de 1900 e outro de 1909, do realizador Edwin S. Porter. A lenda e o herói que desafiava o mundo e o diabo atraíam os artistas. Outro ilustre, D.W. Griffith dirigiu uma versão atualizada de Fausto, com o título de “Sorrows of Satan”, no mesmo ano do filme de Murnau. Mas este destaca-se em tudo das tentativas dos outros: bem ao gosto de uma germanidade feita de magia e mistério, como nos contos dos irmãos Grimm, abundam trevas e luz, fogos, fumos e nevoeiros, ventanias de alma, – tudo com a mestria que os técnicos alemães tinham desenvolvido à época, no que os críticos chamavam de “sinfonia de imagens”. A herança expressionista está contida no cuidado quase escultural com que rostos e massas humanas são tratadas nas cenas de maior destaque: grandes planos de Fausto, Mefisto ou Margarida, multidões correndo em desvario nas cenas de fuga à peste que assola a cidade.

O mito sob o olhar atento de F.W. Murnau

Em “Fausto”, vê-se toda incredulidade do homem. Fausto é um homem velho, um sábio, fervoroso crente de Deus – aliás, não poderia ser diferente na Idade Média -, que, quando Mephisto espalha a praga pela cidade, perde a fé, e se entrega ao demônio. Ele assina um pacto, inicialmente de 24 horas, de que poderia ter o que quisesse. Seu objetivo era ajudar o próximo, mas é apedrejado ao ser desmascarado. Ele então se furta à solidão de seu quarto, e acaba pedindo a juventude. Alucinações, e seu novo desejo é uma mulher preste a se tornar princesa. Porém suas 24 horas estão acabando. E num ato de ambição, assina o pacto eterno. Jovem, ele descobre uma bela moça da cidade. Por ela se apaixona, e graças a Mefistófeles, enamoram-se. Só que Mephisto lhe reserva mais no futuro.

A partir da metade do filme, vislumbra-se um romance aparentemente impossível. Mesmo que seja improvável, eles estão juntos, apesar de toda desgraça que cai sobre eles. E por mais negativo que seja o conteúdo – pois o amor é uma danação, já que nunca será eterno -, a atmosfera é leve. Sofre-se com os personagens. Assim como o amor e romance, Fausto é um maldito. Mas os pássaros ainda cantam, e o mundo é um lugar bom. Entre tantos aspectos de desnorteio e de loucura, o diabo é o ser mais controlado. Posto diante de Deus, zomba com lógica. Mesmo que sua vitória não exista.

Quando Fausto é condenado pela juventude, busca redenção. Porém o que lhe causa sofrimentos é a paixão e o romance. Sua redenção só poderia ser perante isso. Dentro dessa lógica de incertezas e de desilusões, “Fausto” encontra sua expressão ao mostrar o mundo de dentro para fora, e não de fora para dentro – como no expressionismo. E vinga-se de si mesmo.

Tratando dos enigmas da vida, encontra a resposta a que tanto procurava. Mephisto funciona como um catalisador, muito mais importante que a amada, na vida de Fausto. Eles se completam, por mais farsante que tudo seja. O que Fausto vive desde o primeiro momento do filme é uma grande desilusão. Desilusão quanto à fé, quanto à juventude, quanto ao amor… E, invariavelmente, leva-o a um mundo de angústias ilógicas. Ele se acha, ao se perder.

Dentro dos silogismos e sofismas do cinema alemão, entende-se a desilusão. “Fausto” não é o melhor Murnau, mas é o que o melhor representa dentro de uma estética.

Uma das Últimas Criações do Expressionismo Alemão

Poucos informes existem sobre a lendária figura de Fausto. Sabe-se que existiu um indivíduo de nome Johannes Georg Faust entre os anos 1480 e 1540, aproximadamente, natural de Knittlingen, hoje cidade alemã. Essas raras notícias só aumentam o poder especulativo sobre sua existência, e mais especificamente, sobre seu caráter. De acordo com Erwin Theodor, no prefácio de “Fausto”, “onde quer que se apresentasse, tornava-se logo o centro das atenções e assim, rejeitado, por exemplo, por teólogos, passava a ser aceito por naturalistas, objeto de curiosidade e temor. Ele próprio atribuía-se o título de “filósofo-mor entre os filósofos” e dava-se ares de um semi-deus. Jactava-se de poder reanimar os mortos, dizia-se médico, praticava a astrologia, era vidente, profeta e quiromante.”

Relatos orais floresceram cada vez mais ao redor de Fausto e, já no século XVI, é apresentada uma dissertação universitária a respeito desse objeto, que posteriormente influenciou um livro de histórias resumidas sobre as peripécias desse personagem, publicado anonimamente. Há também de se registrar “A História Dramática do Doutor Fausto”, de Christopher Marlowe, obra dramática publicada provavelmente em 1592.

São trabalhos que pertinentemente influenciaram o escritor alemão Goethe (1749-1832) a talhar sua criação máxima, o supracitado “Fausto”, para muitos a obra fundamental da história germânica e sempre relacionado entre os livros mais importantes de toda a literatura mundial, que não por acaso levou cinqüenta e nove anos para ser concluído, em suas duas partes. É através da literatura de Goethe que o mito de Fausto se concretiza no imaginário, não só do povo alemão, mas também de toda a cultura universal, tornando-se referência para todas as belas artes e também para o cinema, que ainda nem sonhava em existir.

O enredo de “Fausto” concentra-se no personagem-título que, no afã de estar além dos conhecimentos da época, assina, com o próprio sangue, um contrato com Mefistófeles (o demônio), através do qual viveria servido pelo diabo por vinte e quatro anos sem envelhecer, em troca de sua alma. Durante esse período, se entrega aos prazeres mundanos para ao fim do prazo ser levado ao inferno. Porém, tendo encontrado o amor em Margarida, é salvo do destino ao qual se comprometera.

Tratado como um arquétipo da alma humana, o mito de Fausto nunca se esgotou, tanto no simbolismo quanto na literatura, sendo revisitado por artistas posteriores à Goethe, como Puchkin, Christian Dietrich Grabbe, Paul Valéry, Fernando Pessoa e Thomas Mann. Fausto também se transformou em temas de peças musicais de compositores clássicos como Wagner, Berlioz, Schumann e Liszt.

No cinema, a primeira representação conhecida do mito surgiu em 1904, em um filme francês dirigido por Georges Fagot para a lendária companhia Pathé Frères. Desde então, pouco mais de vinte produções audiovisuais abordaram o tema, entre elas “Fausto” (Faust – Eine Deutsche Volkssage, 1926), de F. W. Murnau.

“Fausto”, de Murnau, foi lançado em 1926, uma época em que o expressionismo alemão já se encontrava em declínio, afetado pela ascensão do nazismo ao poder e pelo pensamento dos próprios realizadores de que o movimento já estava por demais assimilado e, portanto, perdera o seu impacto junto às platéias. Ele faz parte da última fase da cinematografia alemã de Friedrich Wilhelm Murnau, junto com os prévios “A Última Gargalhada” (Der Letzte Mann, 1924) e “Tartufo” (Herr Tartüff, 1925). Assim como os demais grandes expoentes do cinema alemão da época, F. W. Murnau migraria para os Estados Unidos, onde seguiria carreira e realizaria, na seqüência, “Aurora” (Sunrise: A Song of Two Humans, 1927), considerada por muitos sua obra máxima, até seu falecimento precoce em um acidente automobilístico, antes mesmo de ver lançado seu último filme rodado, “Tabu” (Tabu: A Story of the South Seas, 1931).

“Fausto” foi concebido para se tornar um grande marco do cinema da época. Superprodução da UFA – Universum Film A. G., produtora criada pelo estado para fins propagandísticos, mas que naquela época já estava privatizada e voltada para fins comerciais, foi roteirizado por Hans Kyser, baseado em Marlowe, Goethe e no folclore nacional; e para escrever as legendas, a UFA contratou Gerhart Hauptmann, o mais importante poeta alemão da época. Para a cenografia, foram chamados Robert Herlth e Walter Röhrig, os mais conceituados de todo o cinema expressionista, que trabalharam também com o desenho de figurinos, auxiliados por Georges Annenkov. Com toda essa equipe de gabarito comprovado, somado ao alto custo de produção e à maturidade técnica e criativa de F. W. Murnau, era de se esperar que o filme virasse realmente um grande acontecimento.

Contrariando todas as expectativas, o filme foi ignorado por público e crítica, tornando-se um grande fracasso na Alemanha – como consolo, fez relativo sucesso no mercado externo. Siegfrid Kracauer, teórico do cinema alemão, enumerou em seu livro “De Caligari a Hitler – Uma História Psicológica do Cinema Alemão” motivos deste insucesso: a deturpação dos motivos significativos inerentes ao tema, a vulgarização do conflito metafísico entre o bem e o mal, a prolongada história de amor entre Fausto e Margarida, uma monumental exposição de artifícios capitalizando o prestígio da cultura alemã, obsoletas poses teatrais dos atores e, principalmente, o ressentimento dos alemães em interferências em suas noções tradicionais dos clássicos.

Outra pesquisadora importante do cinema alemão, Lotte H. Eisner, recebeu o filme de outra forma. Eisner, que dedica todo um capítulo a “Fausto” em seu livro Murnau, declara que este tem a mais importante e pontual imagem do chiaroscuro, quando em seu prólogo mostra o embate entre o anjo e o Mefistófeles. Destaca também o clima mágico produzido, o uso dos efeitos especiais e a contenção na movimentação de câmera (movimentação esta que F. W. Murnau foi o pioneiro em “A Última Gargalhada”), além de destacar a parte em que crianças aparecem evocando anjos de Botticelli.

A despeito de sua recepção e da época em que foi lançado, “Fausto” guarda em sua estrutura referências estéticas e narrativas bastante concretas do expressionismo, por mais que não esteja completamente integrado ao movimento – e nenhum outro filme foi, excetuando-se “O Gabinete do Dr. Caligari” (Das Cabinet des Dr. Caligari, 1920), a referência maior do expressionismo alemão.

Como escreveu Louis Delluc, a arte expressionista, na busca de impressionar o espectador, sacrifica a massa dos detalhes, de inspiração no teatrólogo Max Reinhardt. O que de acordo com Luiz Nazário em seu livro De Caligari a Lili Marlene – Cinema Alemão, “se notabilizou pela estilização dos cenários, pela dramatização da atmosfera, pela movimentação de massas no palco, pelo arranjo coral dos coadjuvantes e pela iluminação”. É bem nítida em “Fausto” a utilização dos três elementos da deformação – a iluminação, a decoração e o jogo de atores – nos momentos fantásticos, isso é, no prólogo e no epílogo, quando entram em cena Mefistófeles e o anjo, entretanto no desenvolvimento do enredo esses elementos são pinçados de forma mais comedida. Enquanto isso, os elementos naturais são praticamente suprimidos, como de praxe, exceto quando o sol se põe para a entrada do demônio em cena, transformando a ação em acontecimento dramático, ou quando arbustos, símbolo de Van Gogh para a claustrofobia social, aparecem quando Fausto está ao ar livre.

Quanto à animização, a tradução plástica por linhas, formas e volumes do drama dos personagens, é notória em Fausto a arquitetura apinhada do vilarejo medieval no qual é situada a história, quase uma colméia, salientando a propensão deste lugar à epidemia de peste negra que o assolará. É também importante salientar os tamanhos minúsculos dos ambientes fechados, potencializadores das angústias e frustrações dos personagens.

Quando o personagem Fausto, já pactuado com demônio, viaja através do mundo até Parma, outra característica expressionista vem à tona: a efusão, a experiência vivida intensamente em detrimento da descrição minuciosa, a busca do próprio testemunho contra a reprodução meramente mecânica. Quanto aos personagens da trama, aquele que recebe maior tratamento é, com certeza, o mais alegórico – no caso, o Mefistófeles interpretado pelo premiado Emil Jannings. Pelas próprias características sombrias do Expressionismo, o horror permeia a narrativa e é visualizado através do personagem de Jannings, o personagem sinistro que concentra o poder em suas mãos, habilmente conduzindo os demais personagens.

Novamente citando Eisner, “a sombra é a pátria da alma alemã” e, portanto, aparece como elemento fundamental na cinematografia da Alemanha do pós-Primeira Guerra. Para os expressionistas, a sombra funcionava como metáfora do inconsciente, da repressão, da clandestinidade e das trevas. Em “Fausto”, a idéia da sombra atinge clímax dramático quando um agigantado Mefistófeles, sobre a vila medieval, abre sua enorme capa, já dando a idéia de que uma catástrofe está por vir naquele lugar – no caso, a peste negra. Outros elementos menores do expressionismo também se encontram presentes no filme, como as ruas que exprimem as angústias atemporais e metafísicas, as feiras que simbolizam o caótico da Alemanha pós-guerra, as escadas como símbolo de ascensão espiritual, o livro e sua significação sagrada, etc.

Considerando as duas obras em questão, o livro de Goethe e a representação fílmica abordada nesse texto, percebe-se um paralelo muito mais interessante do que a simples questão formal cinematográfica. Toda a espinha dorsal narrativa de Fausto (o livro), para efeito da época em que foi escrito, representa uma conexão com o início da moral burguesa. Apesar do personagem ter pecado, durante sua trajetória ilícita realizou uma série de avanços para o bem comum, justificando assim suas falhas pelo bem da coletividade, que nada mais é que a base do romantismo, o retrato quase natural da burguesia que nascia com a Revolução Industrial, o fim da aristocracia e o nascimento dos valores da época, como a criação dos filhos, a educação, o dinheiro e a honra pessoal. Esses valores estão incrustados em praticamente todos os filmes de Murnau, com seus personagens sempre vacilando entre a tentação e a racionalidade, e muito particularmente em Fausto.

Outra característica marcante, mais especificamente do movimento alemão, é o profundo relacionamento com a natureza e como procuravam representar a perfeição humana. Essa característica fez com que os nazistas se aproximassem dos ideais românticos, principalmente na questão da busca pela raça pura ariana. Para os nazistas, então, essas obras representariam o ideal da beleza, e em contrapartida as obras expressionistas seriam “feias”. Nesse cinema, Murnau explora os cenários externos, o uso de pouca maquiagem; sua câmera passeia sem tanta melancolia. Não há angústia na fotografia. A iluminação não acalenta essa verve expressionista pesarosa, que, em combinação do cenário, perpassa toda a essência desse momento de dificuldade da sociedade alemã.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0016847/

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