A Trilogia do Neo-Realismo Italiano

A TRILOGIA DO NEO-REALISMO, DE VITTORIO DE SICA

O Neo-Realismo Italiano

Foi um movimento cinematográfico com preocupações humanistas, que nasceu do anti-fascismo logo após a II Guerra Mundial na Itália e que, muito embora o seu curto período de existência (1943-1952), influenciou o cinema italiano e mundial.

Marcada pela ditadura de Benito Mussolini nas décadas anteriores, a Itália do pós-guerra era um país devastado, com uma economia em grandes dificuldades e que sentia a difícil transição da agricultura para a indústria. Esta realidade estava longe do cinema italiano, quer das produções nacionais, que se resumiam a histórias fantasiosas e irreais, quer devido às produções de Hollywood, que inundavam o país. Neste contexto, os neo-realistas reclamavam que o cinema devia “enxergar” e analisar a realidade, mostrando a vida italiana sem embelezamento. A filosofia do neo-realismo, cujas fundações foram estabelecidas pelo poeta e argumentista Cesare Zavattini, tinha, assim, uma clara preocupação humanista, onde se enfatizava a vida real e o espírito coletivo.

De forma a realçar a sua filosofia, o cinema neo-realista recorria a atores não profissionais e a um estilo cinematográfico muito perto do documentário e era completamente o oposto do cinema de Hollywood. No entanto, este foi, a par dos filmes de Jean Renoir e de Alessandro Blassetti, uma das influências do movimento: não só nos movimentos de câmara, mas também na luz, onde o film noir é a referência principal.

Com a melhoria das condições econômicas e com uma realidade já bem diferente do pós-guerra, o neo-realismo começou a perder fôlego na década de 50. Embora tenha durado cerca de 10 anos, o movimento alterou profundamente o cinema italiano e mundial, tendo influenciado realizadores e mesmo outros movimentos como a Nouvelle Vague francesa ou o Dogma 95 dinamarquês. Apesar de todo o seu contexto histórico, os filmes do neo-realismo valem por si próprios e perduram na memória de cinéfilos do mundo inteiro, como se pode comprovar pelos exemplos de “Roma, Cidade Aberta” (1945) de Roberto Rosselini, “A Terra Treme” (1948) de Luchino Visconti e a trilogia de Vittorio de Sica, composta por “Vítimas da Tormenta” (1946), “Ladrões de Bicicleta” (1948), considerado o melhor exemplo do neo-realismo, e “Umberto D.” (1952).

VÍTIMAS DA TORMENTA
Título Original: Sciuscià
Título em inglês: Shoe-Shine
País: Itália
Ano: 1946
Duração: 93 min.
Direção: Vittorio De Sica
Elenco: Franco Interlenghi, Rinaldo Smordoni, Annielo Mele, Bruno Ortenzi, Emilio Cigoli, Maria Campi, Leo Garavaglia, Peppino Spadaro
Sinopse:
Um retrato das crianças de rua na Itália do pós-guerra. Giuseppe e Pasquale são duas das crianças, dois grandes amigos que vivem de lustrar os sapatos de soldados americanos. Eles dividem suas esperanças e seus sonhos inocentes de um futuro melhor, mas acabam presos numa terrível instituição para menores.

Primeiro filme da trilogia neo-realista de Vittorio De Sica (os seguintes são “Ladrões de Bicicletas” e “Umberto D.”), “Vítimas da Tormenta” é um relato da decadência social provocada pelo período fascista de Mussolini, na Itália após a II Guerra Mundial. A realidade dos meninos de rua (o tema central do filme) mostrou-se perfeita para os princípios do neo-realismo e De Sica utiliza-os para construir um retrato cru e realista, completamente oposto ao que Hollywood vinha produzindo. O filme tem por base mais uma colaboração entre o realizador e Cesare Zavattini, um dos mentores do neo-realismo italiano, tendo contado com a interpretação de atores não-profissionais. Sem o esplendor de “Ladrões de Bicicletas”, também devido ao baixo orçamento, não deixa de ser um filme excelente em toda a sua emoção pura e embora tenha sido um fracasso de bilheteira na Itália, foi um enome sucesso internacional, indicado para o Oscar de melhor roteiro e premiado com um Oscar especial pela sua qualidade artística resultado da dificuldade de se filmar em circunstâncias tão adversas.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0038913/

LADRÕES DE BICICLETA
Título Original: Ladri di biciclette
Título em inglês: The Bicycle Thief
País: Itália
Ano: 1948
Duração: 93 min.
Direção: Vittorio de Sica
Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carrell, Elena Altieri, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Giulio Chiari, Carlo Jachino, Fausto Guerzoni, Michele Sakara.
Sinopse:
Logo depois da Segunda Guerra Mundial, a Itália está destruída e o povo passa necessidades básicas. Antonio Ricci consegue um emprego de colador de cartazes na rua, mas ele deve ter uma bicicleta. Junto com sua mulher Maria, ele consegue dinheiro para comprar uma. Mas no primeiro dia de trabalho, ele tem a bicicleta roubada.

Premiado com o Oscar de Filme Estrangeiro, este clássico tornou-se um dos grandes momentos do cinema, marcando o ressurgimento do cinema italiano em meio às cinzas do fascismo e estabeleceu os alicerces do neo-realismo que se estenderia durante os anos 50 na Itália graças a Luchino Visconti, Roberto Rossellini e Vittorio De Sica, que aqui conta com o roteiro de Cesare Zavattini para oferecer um quadro autêntico de um país devastado e pobre, utilizando-se de atores não profissionais, filmagens nas ruas e sem recursos de estúdio para atingir o realismo próprio dos filmes desse período – expor a realidade como ela é vista e vivenciada pelos personagens. É o segundo filme de uma trilogia do cineasta, iniciada com “Vítimas da Tormenta” (Sciuscia, de 1946) e concluída com “Umberto D.” (1952). O ponto de partida foi o romance homônimo de Luigi Bartolini, bastante modificado por Zavattini e De Sica, que transformaram a obra original em uma odisséia carregada de metáforas onde a bicicleta é a mola que move a história. Ao contrário do primeiro filme, de Sicca contou com uma grande equipe de técnicos, envolvidos em um elaborado processo de filmagem para criar cenas de multidão e até chuva artificial, nunca escondendo que suas influências são King Vidor e Charles Chaplin. De qualquer modo, embora pertença a um perído histórico e seja encaixado em uma estética cinematográfica, os questionamentos que surgem com a trama de “Ladrões de Bicicletas” são atemporais e relevantes: é impossível não se emocionar com as situações constrangedoras que pai e filho passam durante a procura pela bicicleta roubada. Um filme cruel em sua observação crítica e social, mas humanista no que se reserva aos sentimentos que expõe e acima de tudo extremamente verdadeiro, o principal momento da carreira de Vittorio De Sica e um dos melhores filmes de todos os tempos.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0040522/

UMBERTO D
Título Original: Umberto D.
País: Itália
Ano: 1952
Duração: 91 min.
Direção: Vittorio De Sica
Elenco: Carlo Battisti, Maria-Pia Casilio, Lina Gennari, Ileana Simova, Elena Rea, Memmo Carotenuto.
Sinopse:
Na Itália do início dos anos 50, idosos sofrem com miseráveis pensões dadas pelo governo enquanto a economia do país renasce. Em Roma, Umberto Domenico Ferrari, um funcionário público aposentado que vive apenas acompanhado do seu cão Flick, é despejado por não conseguir pagar o aluguel de seu quarto.

Quatro anos após “Ladrões de Bicicletas”, e tendo “Milagre de Milão” pelo meio, Vittorio de Sica regressa à origens e realiza “Umberto D.”, o capítulo final da sua trilogia neo-realista (o primeiro filme é “Sciuscià”). O filme, a exemplo dos seus predecessores tornou-se um clássico inesquecível, um drama contundente sobre a velhice desamparada e que marca o apogeu da parceria entre o cineasta Vittorio De Sica e o roteirista Cesare Zavattini, a dupla responsável por todas essas obras-primas do neo-realismo italiano. Este drama da velhice ignorada, permanece atual diante de uma realidade que não mudou em mais de cinquenta anos, e continua pungente e emocionante na imagem em que o sentido de sobrevivência do velho escriturário tentando pedir esmola entra em conflito com o que resta de seu amor próprio, uma das mais marcantes cenas do Cinema em todos os tempos. Contrariando um pouco a filosofia neo-realista, De Sica faz de “Umberto D.” o filme mais emotivo da trilogia e um filme verdadeiramente atemporal. Criticado em seu país natal pela sua visão pessimista da realidade italiana, foi aclamado internacionalmente, reconhecido como o último grande exemplo do neo-realismo.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0045274/

O Diretor Vittorio De Sica

Cineasta italiano nascido em Sora, na região italiana do Lácio e próxima de Roma, cuja obra cinematográfica foi caracterizada por um aspecto humanista e singelo, Vittorio de Sica foi um dos mais importantes diretores e atores do cinema italiano e considerado o precursor do neo-realismo em seu país.

Vittorio cresceu em meio a uma família de classe média em Nápoles e teve formação educacional média. Estimulado pelo pai, seguiu a carreira teatral e estreou no cinema em papel menor no filme mudo “Il Processo Clémenceau” (1917). Após sentar praça em um regimento de granadeiros, entrou em 1921 para a companhia teatral da bailarina Tatiana Pavlova.

Estreou como ator de cinema no filme de Mario Camerini, “Gli uomini, che mascalzoni!”, de 1932. A popularidade e a fama como galã veio com o lançamento da canção “Lodovico” numa revista teatral. Em sua carreira como ator (1926-1973) interpretou em noventa filmes, e na carreira de diretor em 22, no período de 1940 a 1974. No início os mais expressivos foram “Maddalena zero in condotta” (1940) e “Un garibaldino al convento” (1941).

No pós-guerra, em associação com o roteirista Cesare Zavattini, criou obras-primas como “Sciuscià” (1946), “Ladri di biciclette” (1948), “Miracolo a Milano” (1950), “Umberto D” (1951) e “Il tetto” (1956). Com uma vitoriosa carreira e repleta de prêmios, em 42 anos de carreira recebeu três prêmios Oscar de melhor filme estrangeiro por “Sciuscià” (1946), “Ladri di biciclette” (1948) e “Il giardino dei Finzi-Contini” (1971). Tinha como seus atores preferidos Marcello Mastroianni, Sophia Loren e Gina Lollobrigida, seus amigos particulares, e os dirigiu em vários filmes.

De Sica tinha paixão pelas pizzas, pelas mulheres, pelas mesas de poquer e não conseguia separar-se dos cigarros. Casou-se pela segunda vez com a atriz espanhola Maria Mercader, com quem teve três filhos, e tinha o apelido de Vitto, Commendatore e Maresciallo, este último em função de seu papel em “Pane, Amore e Fantasia”, de 1953, onde interpretava um suboficial carabineiro. Morreu em Paris, em 15 de novembro de 1974, aos 73 anos, na véspera da estréia do último filme, “Il viaggio” (1974), com Richard Burton e Sophia Loren.

Filmes de Vittorio De Sica como diretor:
1974 – Viagem proibida
1973 – Amargo despertar
1972 – Até que o divórcio nos separe
1971 – I cavalieri di Malta
1971 – Dal referendum alla costituzione: Il 2 giugno
1970 – Contini
1970 – Os girassóis da Rússia
1968 – Um lugar para os amantes
1967 – Sete vezes mulher
1967 – As bruxas
1966 – O fino da vigarice
1966 – Um mundo jovem
1964 – Matrimônio à italiana
1963 – Ontem, hoje e amanhã
1963 – Il boom
1962 – O condenado de Altona
1962 – Boccaccio
1961 – O juízo universal
1960 – Duas mulheres
1958 – Anna di Brooklyn
1956 – O teto
1954 – O ouro de Nápoles
1953 – Villa Borghese
1953 – Quando a mulher erra
1952 – Umberto D.
1951 – Milagre em Milão
1948 – Ladrões de Bicicletas
1947 – Cuore
1946 – Vítimas da tormenta
1945 – A porta do céu
1944 – A culpa dos pais
1942 – Recordações de um amor
1941 – Teresa Venerdi
1940 – Madalena, zero em comportamento
1940 – Rose scarlatte

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