Arquivos Mensais: julho \25\UTC 2012

Grandes Diretores: Alfred Hitchcock – Parte 1

ALFRED HITCHCOCK: O CINEASTA QUE SABIA DEMAIS – PARTE 1/4

Hitchcock foi um dos primeiros diretores a chamar atenção para o seu papel na realização de um filme, fazendo do diretor a grande estrela do filme. Pela primeira vez o público se dirigia ao cinema para ver “um filme de Alfred Hitchcock”, independente do protagonista ser James Stewart ou Cary Grant. Parte disso deve-se à persona pública construída por Hitchcock, impregnada no imaginário mundial através do programa televisivo “Alfred Hitchcock Presents”, onde o diretor assumia um humor negro distinto e um tom de ironia macabro. Além disso, a maior parte de seus filmes contém uma rápida aparição de Hitchcock como figurante, uma espécie de assinatura lúdica.

Apesar da associação imediata geralmente feita entre Hitchcock e o suspense, o diretor regularmente visitava outros gêneros, como o terror (Psicose), a comédia romântica (Mr. and Mrs. Smith) e o humor negro (O Terceiro Tiro). Também ousava experimentar e procurar desafios, como ambientar um filme todo num pequeno barco (Lifeboat), criar um filme que aparente ser um grande plano seqüência (Festim Diabólico) e criar planos e movimentos de câmera inventivos que povoam toda sua obra.

A famosa silhueta do mestre do suspense escondia um gênio debochado, glutão e sem papas na língua

Sempre que o relógio batia seis horas da tarde, Alfred Hitchcock encerrava as atividades no estúdio e ia para casa. Certa noite, encontrou a esposa, Alma, fazendo o jantar. “Preparava um suflê e Hitch bateu as claras para mim”, lembra. “Ele observou como misturei o queijo e coloquei o pirex, delicadamente, no forno. Quando liguei o cronômetro, percebi que meu marido não tirava os olhos do forno.”

“Aqui está o drama”, cochichou ele, como se um tom de voz mais agudo impedisse o crescimento do suflê. “O que está acontecendo atrás daquela porta???” Finalmente, o relógio tocou. “O suflê estava perfeito – e meu marido uma ruína”, conta. “Nada mais de suflês”, anunciou Hitchcock, “ até que tenhamos um forno com uma porta de vidro”. Segundo Alma, antes de casarem, Hitch lhe escrevia longas cartas e depois as levava pessoalmente, pois, confessava, não suportava o suspense de esperar o correio entregá-las.

Em outra ocasião, Hitchcock estava no elevador de um grande edifício em Nova York. Ele relatava a um amigo o crime que, segundo afirmava, fora cometido sob suas vistas. “De repente”, disse ele, “o sujeito tirou uma faca do bolso…” Nisso, as portas do elevador se abriram e o senhor corpulento e o amigo saíram tranquilamente, deixando para trás um público ansioso por conhecer a continuação do caso. Hitchcock pregava mais uma de suas peças favoritas: deixar a plateia na mais pura tensão. Ele dizia que jamais faria um filme sobre a Gata Borralheira, porque “todo mundo esperaria encontrar um cadáver na carruagem”. Quando perguntavam qual era a sua missão, ele respondia: “Aterrorizar as pessoas”. Definitivamente, não faz sentido: como um homem que não aguenta nem esperar um suflê ficar pronto pode ser o mesmo sujeito em cuja mente borbulham histórias de tirar o fôlego? Como pode ter dedicado a vida ao suspense, se ele próprio não suportava surpresas? Não se sabe a resposta. Talvez nem ele mesmo soubesse. Mas o fato é que Alfred Hitchcock não ganhou o título de “mestre do suspense” por obra do acaso.

Este sujeito baixinho, balofo, de fala mansa e um ar contagiante de tranquilidade foi o criador de pérolas do gênero como “Janela Indiscreta”, “Intriga Internacional”, “Um Corpo que Cai”, “Psicose”, “O Homem que Sabia Demais” e uma lista de cinquenta filmes que entraram para a história do cinema como prova de que não é preciso sangue nem violência para deixar a plateia de olhos abertos. “Suspense não é a manipulação de material violento”, explicava, “mas sim a dilatação de um período de tempo, o aumento de uma pausa, a ênfase em tudo o que faz nosso coração bater mais depressa”. E assim ele fez, aumentando o ritmo cardíaco de seus fãs por 55 anos. Ele teve muitos discípulos, mas seu título permanece intocado. Passados quase 30 anos de sua morte, nenhum outro cineasta se candidatou a conquistar sua posição. Ou melhor: não conseguiu.

Quando ainda era Alfred Joseph Hitchcock, um menino de quatro anos, já tinha o aspecto roliço, motivo de provocação dos irmãos, William e Nellie. Desde pequeno, ele mostrava um nítido gosto por brincadeiras mórbidas, entre elas assustar seus coleguinhas de escola amarrando bombinhas em suas calças ou jogar ovos nas janelas das casas dos professores jesuítas. Quando um padre furioso pedia explicações, Hitch dizia com olhar inocente: “Acho que foram os pássaros”. Como punição por ter chegado mais tarde em casa, o pai mandaria o menino Hitchcock, carregando um bilhete, para uma delegacia próxima. O delegado (que era amigo do pai de Hitch) leria o bilhete e deixaria o apavorado menino alguns minutos preso numa cela do distrito, dizendo as seguintes palavras ao soltá-lo: “Veja o que pode acontecer, se não fores um bom menino”. O terror que passou o menino iria refletir-se na sua obra cinematográfica na forma como os policiais seriam retratados nos seus filmes.

Extremamente tímido, ele não era de muitos amigos. Sempre gostou de viajar – e por isso adorava filmar em locação -, mas enquanto garoto se satisfazia em cabular aula e passear de ônibus pela cidade. As travessuras eram punidas severamente. O pai, Frank, era um católico fervoroso que criou os filhos com rígida disciplina e não hesitava em soltar a mão em quem saísse da linha. Hitch nasceu em 13 de agosto de 1899, no subúrbio londrino de Leytonstone, Essex, e teve uma infância feliz, longe da miséria. Frank herdara uma loja de verduras, perus e galinhas, o que garantiu o sustento e a educação dos filhos. A mãe, Emma, era superprotetora. Quando perdeu o pai, aos quatorze anos, Hitch se tornou ainda mais fascinado por ela. “Emma não saía do quarto se não estivesse arrumadinha.” Com a mãe, ele aprendeu os segredos da cozinha. Regime nunca foi o seu forte: “Certa vez, olhei-me no espelho e dei um berro de horror. Desde então, limito-me a comer somente três pratos nas refeições: aperitivo, peixe, carne e apenas uma garrafa de vinho”, zombava o glutão. Apetite era o que não lhe faltava.

Os pais, embora conservadores, apreciavam artes e levavam os filhos ao teatro e ao cinema. “Gostava mais das produções americanas do que das inglesas e lia todas as publicações sobre cinema”, revela. Em casa, passava horas diante do mapa-múndi, marcando os deslocamentos dos navios britânicos durante a Primeira Guerra Mundial. Hitch adorava desenhar, e a mãe concluiu que seria engenheiro. Sempre obediente, ele estudou tanto engenharia como artes. Na época, trabalhou numa agência de publicidade e, depois, na Companhia Telegráfica W.T. Henley. Lá, dedicava-se a ridicularizar os chefes, inspirando-se neles para criar grotescas caricaturas. Despedido, arranjou finalmente emprego que tanto queria. Era 1920, quando foi contratado pela Famous Players Lasky (subsidiária inglesa da Paramount) como desenhista e redator de títulos e legendas dos filmes mudos.

De todas as lições que aprendeu na escola jesuíta Santo Inácio, Hitchcock guardou uma delas para sempre: o medo. “Aprendi a ter medo, muito medo.” Tornou-se um expert no assunto. Justificava o sucesso de seus filmes pela sensação que provocavam. “Acha que as pessoas desejam sentir medo?” perguntavam a ele. “Não o medo das coisas reais, mas daquilo que, de uma forma ou de outra, elas sabem que não existe”, explicava. Segundo o cineasta, a mania pelo terror tem origem em histórias infantis. “Chapeuzinho Vermelho é canibalístico. Nós crescemos ouvindo contos assim – e adoramos”, exemplificava. “Sabia que meus filmes funcionavam quando ouvia o riso nervoso da plateia.” As risadas, na verdade, vinham de cenas cômicas inseridas propositalmente. “Se não der oportunidade à audiência para rir, ela rirá da mesma forma, porque não aguentará a tensão”, justificava. “É melhor colocar umas piadas para aliviar do que vê-la rindo nas horas erradas.”

Hitchcock se irritava profundamente quando diziam que seus filmes eram de mistério. Explicava que o mistério provém da supressão de uma informação, enquanto o suspense, ao contrário, da comunicação desse dado. “Se explodirmos repentinamente uma bomba numa sala com dez pessoas, a emoção durará dez segundos. Mas anuncie que uma bomba irá explodir e o suspense durará até o fim.” Hitch sabia do que falava, basta lembrar de “O Marido Era o Culpado”, em que um menino percorre Londres de ponta a ponta carregando um embrulho sem saber que se tratava de uma bomba. O espectador, no entanto, sabe de tudo. Anos mais tarde, Hitch faria uma autocrítica, arrependendo-se da cena em que o garoto morre. “Foi um anticlímax”, admitiu. Mas corria o ano de 1936, e o jovem diretor ainda estava começando a dar seus passos rumo à genialidade.

Hitchcock começou a carreira como uma espécie de faz tudo. Trabalhando com roteiristas e diretores, ele conheceu os mecanismos do cinema. Em poucos meses, escrevia roteiros, atuava como diretor de arte e até dirigia cenas nos filmes dos outros. Arriscou-se na direção ao terminar “Always Tell Your Wife” para o diretor Seymour Hicks, que adoecera. Tentou dirigir e produzir “Number Thirteen”, mas o dinheiro acabou e o filme ficou pela metade. Em 1925, finalmente concluiu “The Pleasure Garden” e conseguiu uma crítica entuasiasmada do Daily Express: “Um jovem com a mente de um mestre”.

Foi em “O Locatário”, inspirado nos crimes de Jack, o Estripador, que suas marcas apareceram pela primeira vez. Aos 27 anos, Hitch já se mostrava preocupado com angulações mais criativas de câmera, fusões, cortes originais e muito suspense. O filme também inaugura um de seus temas favoritos: o homem comum, perseguido e acusado por crimes que não cometeu. Retomaria a ideia em produções como “Pacto Sinistro”, “O Homem Errado”, “Sabotador” e o imbatível “Intriga Internacional”. Seus vilões também eram diferentes. “Já se foi o tempo em que se projetava uma luz verde quando o malvado entra em cena”, falava. “Prefiro fazê-los afáveis, bem-humorados, com apenas algum indício que transmita dúvida: sapatos de duas cores, o hábito de palitar os dentes com um alfinete de diamante para gravatas ou a falta de um dedo na mão”. Hitch transformava coisas simples, como uma chave ou um isqueiro, em objetos causadores de aflição ou de repugnância.

Neste filme, que o próprio Hitch considerava o “primeiro filme de Hitchcock”, o diretor pôde usar o que tinha aprendido dos expressionistas e do cinema soviético, apresentando um conjunto de imagens e suspense até então nunca vistos no cinema britânico. Apesar das dificuldades, pois “The Lodger” quase foi engavetado (os produtores temiam que sua temática afastasse o público), o filme, depois de lançado, foi um imenso sucesso e aclamado como o melhor filme inglês já feito até então.

“O Locatário” também foi o primeiro filme em que fez sua tradicional aparição. “Era uma cena de multidão e não havia extras suficientes, então fiz uma ponta”, revela. “Mais tarde, tornou-se uma superstição, depois, uma brincadeira, para enfim se tornar embaraçoso, já que tinha de aparecer ostensivamente nos primeiros cinco minutos de fita, senão o público não assistia ao filme tranquilamente.” Sempre vestindo o impecável terno e gravata, Hitch seria visto bebendo champanhe com Claude Rains em “Interlúdio”, de perfil consultando uma médium em “Trama Macabra”, esperando sua vez ao lado de uma cabine telefônica em “Rebecca”, ouvindo um discurso do governador em “Sob o Signo de Capricórnio” e assim por diante.

Depois do sucesso de “The Lodger”, Hitchcock foi criando uma série de sucessos, tendo, inclusive, o privilégio de dirigir o primeiro filme sonoro inglês, “Chantagem e Confissão” (“Blackmail”, 1929). Neste filme Hitch mostrou sua genialidade cinematográfica, pois a presença do som criava novos problemas para o até então cinema mudo, problemas estes que o diretor solucionou, aprimorando a linguagem do cinema. “Chantagem e Confissão” começou mudo, pois o filme já estava sendo realizado, sendo que o som foi incorporado no decorrer das filmagens. Hitch não gostou da voz da atriz principal, Anny Ondra, mas uma grande parte do material já estava filmado, o que impedia uma substituição. Para solucionar o problema, Hitch colocou a voz de Joan Barry no lugar da voz de Ondra, numa dublagem perfeita, considerando-se o momento.

Foi ainda na sua fase inglesa que Hitch criou o termo “MacGuffin” para especificar seu desprezo pelas razões vitais dos personagens para a ação. De acordo com o próprio Hitchcock: “De onde vem o termo MacGuffin? Isso evoca um nome escocês e se pode imaginar uma conversa entre dois homens em um trem. Um diz ao outro: “O que é esse pacote que você colocou na sacola?”. O outro: “Ah, isso! É um MacGuffin”. Então, o primeiro: “O que é um MacGuffin?”. O outro: “Pois bem! É um aparelho para apanhar leões nas montanhas Adirondak”. O primeiro: “Mas não há leões nos Adirondak”. Então, o outro conclui: “neste caso, não é um MacGuffin”. Essa anedota mostra-lhe o vazio do MacGuffin… o nada do MacGuffin.”

Depois de “The Lodger” e “Blackmail”, Hitchcock já gozava do prestígio do público e da admiração dos críticos ingleses, e seu nome começava a atravessar o Atlântico. Mas a sua chamada “fase inglesa” ainda ganharia obras-primas do porte de “The Thirty-Nine Steps” (1935) e “Young and Innocent” (1937), onde Hitchcock exercitou um dos temas que lhe era favorito: o inocente perseguido, pois seus heróis são sempre acusados injustamente, perseguidos pela polícia e pelos inimigos, enquanto atravessam o país tentando provar sua inocência. Porém, o seu melhor exemplar desta época, ainda é “O Homem que Sabia Demais”, de 1934. Embora seja um thriller, o que se assiste é um drama familiar em que os pais apenas pretendem salvar a sua filha, sequestrada por criminosos que pretendem assassinar um político estrangeiro. A grande mestria de Hitchcock é transformar uma história simples num interessante filme de suspense, onde tudo contribui para prender a atenção do espectador. O filme marcou a estreia de Peter Lorre (“M – O Vampiro de Dusseldorf”) na Inglaterra, mas o ator não falava uma única palavra de inglês e teve de aprender os seus diálogos através do som, mas mesmo assim consegue uma extraordinária interpretação: o terrível chefe dos assassinos. As comparações com o remake que Hitchcock filmaria em Hollywood são inevitáveis e muito embora a versão de 1956 seja mais elaborada, não consegue atingir o interesse do original.

Porém, no final da década de 30, a Inglaterra se preparava para entrar em guerra com a Alemanha, e estava cada vez mais difícil conseguir verbas para filmar, além do desinteresse de público e da crítica, devido às preocupações sociais pela ameaça que pairava no horizonte. O convite do chefão David O. Selznick para filmar em Hollywood veio na hora certa para Hitchcock. “A Dama Oculta” foi o filme que encerrou a sua fase inglesa. Com elegância e extrema habilidade, o cineasta filma sua história durante uma viagem de trem, em que uma passageira faz amizade com uma senhora idosa, e quando ela desaparece, tenta solucionar o mistério.

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Filmes: A Felicidade não se Compra (1946)

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA
Título Original: It’s a Wonderful Life
Origem: Estados Unidos
Ano: 1946
Duração: 130 min.
Direção: Frank Capra.
Elenco: James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore, Thomas Mitchell, Henry Travers, Gloria Grahame, Beulah Bondi, Frank Fayden, Ward Bond, H.B. Warner.  
Sinopse:
Na véspera de Natal, George Bailey está à beira do suicídio quando é salvo por um anjo da guarda, em missão para ganhar suas asas. Morador de uma pequena cidade, Bailey é daqueles que sempre pensou primeiro no próximo e sacrificou seus sonhos em benefício de outros. Agora está desiludido. Mas o anjo Clarence, numa tentativa de ajudá-lo para vida, mostra-lhe como a cidade seria diferente se ele não tivesse nascido.

Fantasia dramática em tom de fábula, comovente e com final edificante, e que foge às comédias otimistas que Frank Capra dirigiu nos anos 30 e 40. O filme foi incompreendido na época de seu lançamento, levando à falência a produtora de Capra, mas ganhou ao longo do tempo, o status de clássico que hoje ostenta.

Este é um filme maravilhoso

Parafraseando o título original, podemos dizer que há filmes que ficaram na história do cinema não só como clássicos indestrutíveis, mas também como retratos de uma época em que valores como honestidade, respeito e solidariedade ao próximo eram regras sociais invariáveis. Tais filmes mostravam a vitória desses ideais sobre o sistema corrupto, oportunista e ganancioso. E nenhum outro cineasta americano soube retratar o tema com tamanha competência, grandiosidade e emoção como Frank Capra.

Responsável por arrastar multidões aos cinemas nos anos seguintes à Grande Depressão, seus filmes populistas, otimistas e com finais felizes ajudaram a sociedade a enfrentar os anos de recessão e o New Deal de Roosevelt. Como Gary Cooper em “Adorável vagabundo” ou o próprio James Stewart em “A Mulher Faz o Homem”, novamente Capra se une a Stewart para narrar uma história que se tornou, devido às infinitas reapresentações que vem tendo ao longo das décadas, sempre na época do Natal, uma verdadeira instituição americana. Não há pelo menos uma emissora de TV nos EUA, ou mesmo ao redor do planeta, que não encaixe “A Felicidade Não se Compra” à sua grade de programação natalina.

Foi assim, graças à TV, que a comédia dramática de Frank Capra começou a ser cultuada e até hoje inspira diretores como Jon Turtaub ou Frank Darabont. Com sua narrativa revolucionária para a época, “A Felicidade Não se Compra” foi fracasso de público, levou à falência sua produtora, a Libert Films, e foi alvo de críticas negativas, mas os anos fizeram jus à criatividade com que Capra narra a história de George Bailey, um homem comum, que durante toda a vida se sacrificou para o bem de outras pessoas, desde o irmão até o mais humilde cliente da corretora que herdou do pai na cidadezinha de Bedford Falls. Depois de viver abdicando de seus sonhos, na véspera do Natal, George se vê arruinado e pensa em suicídio. Ele é socorrido por um anjo que lhe mostra como seria ruim a vida de todos naquela cidade se ele nunca tivesse existido.

Não há como não observar a originalidade com que Capra introduz a narrativa, mostrando a conversa entre dois anjos no céu e fazendo uso do flashback – uma técnica até então muito pouco utilizada – para mostrar passagens importantes da vida do personagem de Stewart que mais tarde farão um sentido absurdo na seqüência de acontecimentos que envolverão a realidade alternativa proposta pelo anjo Clarence. Em meio a cenas memoráveis como aquela em que George Bailey finge enlaçar a lua para dá-la de presente à futura esposa vivida por Donna Reed, “A Felicidade Não se Compra” possui um desfecho memorável, ainda que previsível, mas que continua capaz de emocionar qualquer espectador até as lágrimas, mesmo que ele continue vendo e revendo esse filme imortal todo final de ano.

Há que se destacar ainda o excelente elenco, onde não apenas James Stewart se sobressai com o ar de bom moço que marcaria toda a sua carreira, mas um punhado de coadjuvantes extraordinários, onde o mais surpreendente é ver o veterano Lionel Barrymore no papel do Sr. Potter, um dos vilões mais terríveis que o Cinema já mostrou, muito diferente do pai de família que interpretou quase uma década antes em outro filme de Capra também estrelado por James Stewart, “Do Mundo Nada se Leva”.

“A Felicidade Não se Compra” é uma prova que grandes histórias vivem para sempre. A magia captada pelas lentes de Capra permaneceu intacta durante todas essas décadas.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0038650/

Trailer:

Link para Download: A Felicidade Não se Compra Legendado AVI

Galeria de imagens:

Atrizes: Audrey Hepburn

AUDREY HEPBURN: A INESQUECÍVEL ATRIZ DOS OLHOS DE GAZELA

Nome: Audrey Kathleen Ruston/Edda van Heemstra
Nascimento e local: 4 de maio de 1929, Ixelles, Bruxelas, Bélgica
Falecimento: 20 de janeiro de 1993, Tolochenaz, Suíça
Ocupação: Atriz, modelo, humanista
Nacionalidade: Belga
Casamentos: Mel Ferrer (1954 – 1968); Andrea Dotti (1969 – 1982)

Audrey era a personificação da elegância. Unia o máximo de naturalidade ao máximo de sofisticação e cativava a todos com uma vivacidade intelectual sem esnobismo. Era, sem dúvida, uma figura rara em meio à ignorância de Hollywood. “Ela é uma de nós”, sussurrou a rainha-mãe à filha Elizabeth quando apresentada à atriz. O diretor Billy Wilder deu a palavra final: “Para se tornar uma estrela de verdade, é preciso um elemento extra que Deus pode lhe dar ou não. Já se nasce com ele; não se pode aprende-lo. E Deus beijou o rosto de Audrey Hepburn”.

A Eternidade Não é para Todos…

Quando tinha dezesseis anos, Audrey Hepburn vivia em Arnhem, na Holanda. Em uma tarde de 1945 foi ao centro da cidade fazer compras em uma das poucas lojas que escaparam dos bombardeios alemães. Ao virar a esquina, ela se chocou com um soldado alemão que conduzia cinco meninas e que ordenou-lhe que se juntasse a elas, avisando que um caminhão as levaria ao quartel-general. Num segundo, ela percebeu que sua vida corria perigo e aproveitou quando seu captor se descuidou para acender um cigarro para fugir, correndo em volta do quarteirão o mais rápido que pôde até encontrar uma casa bombardeada, em cujo porão se escondeu. Exausta, adormeceu. Na escuridão, Audrey perdeu a noção das horas e quando a fome apertou, ela decidiu se arriscar e foi para casa por outro caminho. Para sua mãe, a filha já estava morta ou, como seu meio-irmão, fora enviada para campos de trabalhos forçados. Naquele lugar gelado e semi-destruído, Audrey contraiu icterícia e reumatismo. Além disso, a desnutrição sofrida durante a guerra afetou permanentemente seu metabolismo, forçando-a a fazer constantes regimes de engorda.

Oito anos mais tarde, quando aquela jovem magra e alta, dona de expressivos olhos de gazela e de um contagiante sorriso subiu ao palco para receber o Oscar por “A Princesa e o Plebeu”, ninguém na platéia poderia desconfiar que, havia tão pouco tempo, aquela figura que exalava serenidade sofrera na pele os infortúnios da Segunda Guerra Mundial. Uma das muitas lições da guerra, dizia Audrey, é que o corpo e a mente podem resistir a privações que parecem insuportáveis: “Um dia, minha tia avisou: ‘Amanhã, não teremos o que comer, então é melhor ficar na cama para manter as energias.’ Não quero parecer pretensiosa, mas desde pequena, tenho essa fé de que as coisas sempre se ajeitam”. Naquela noite, um membro da Resistência levou alimentos à família, como farinha, geléia, aveia e manteiga.

Talvez esse inabalável otimismo fosse o maior segredo de Audrey frente aos obstáculos do destino – que não foram poucos. Mas ela soube lidar com eles de forma tão iluminada que logo as coisas entravam nos eixos. Não havia histeria, escândalos, crises de depressão ou internações em clínicas de desintoxicação. Nem mesmo um câncer no cólon abalou seu ânimo. Aos 63 anos, ela enfrentou a doença com o equilíbrio de sempre, mas sobreviveu apenas três meses. Audrey Hepburn morreu durante o sono, em sua mansão na Suíça, em 20 de janeiro de 1993. Audrey era mesmo única. Não havia aquela destruidora carga dramática presente na biografia de Marilyn Monroe ou Judy Garland. Audrey tornou-se imortal por representar exatamente o oposto de tudo aquilo que Hollywood costuma simbolizar: escândalos, exageros, vulgaridade. Com uma imagem frágil, tímida e delicada, ela fugia aos estereótipos de beleza da época. Magra feito um caniço, não exibia as curvas avantajadas ou a sexualidade latente de ícones como Marilyn Monroe. Tinha algo que substituía a tudo isso: classe.

Como embaixadora da UNICEF – função que abraçou nos últimos anos -, Audrey Hepburn foi vista pela última vez na TV acariciando crianças famintas na Somália, imagens que casam perfeitamente com a do anjo que prepara o personagem de Richard Dreyfuss para a morte, em “Além da Eternidade”, de Steven Spielberg, sua última aparição no cinema. Com predicados físicos completamente opostos ao da mulher fatal, Audrey impôs um padrão de beleza em que a elegância predominava acima de tudo. Contrastava com o modelo da mulher de formas curvilíneas que imperava nos anos 50, como as sexy symbols Marilyn Monroe, Kim Novak e Jane Mansfield.

Foi entre uma temporada na Broadway, onde interpretou Gigi, da escritora francesa Colette, e uma turnê pelo interior dos EUA que a belga Edda van Heemstra Hepburn-Ruston, nascida a 4 de maio de 1929, tornou-se um ícone de Hollywood. “A Princesa e o Plebeu”, seu primeiro filme americano depois de algumas pontas em produções menores, não só conquistou súditos como recebeu deles um Oscar de melhor atriz.

Os famosos olhos de gazela exteriorizavam sua estrema feminilidade na tela, e seu corpo frágil de linhas retas era coberto com modelos que o amigo Givenchy desenhava exclusivamente para ela. Nas telas, ao lado de Humphrey Bogart e William Holden, viveu a apaixonada Sabrina no filme homônimo, foi uma princesa ao lado de Gregory Peck; dançou com Fred Astaire em “Cinderela em Paris” – onde pôde exibir toda a sua experiência adquirida nos anos em que estudou dança em Londres; foi uma freira em “Uma Cruz à Beira do Abismo”; no hitchcockiano “Charada” viveu ao lado de Cary Grant uma das duplas mais elegantes do cinema. Era infinita a gama de emoções que o rosto gracioso e iluminado de Audrey podia transmitir: das frivolidades de um texto de Truman Capote, em “Bonequinha de Luxo”, ao desafio de uma personagem cheia de nuances na versão cinematográfica de George Cukor para a peça “Pigmalião”, de Bernard Shaw, em “Minha Bela Dama”.

Sua vida não pode ser narrada como a história da Cinderela porque ela jamais foi Gata Borralheira. Filha da baronesa holandesa Ella van Heemstra e do banqueiro inglês Joseph Victor Anthony Hepburn-Ruston, ela nasceu em Bruxelas com o nome de Andrey Kathleen Ruston. Como Andrey, feminino de Andrew, era de difícil pronúncia, logo ela virou Audrey. Embora nascida na Bélgica, foi registrada como britânica. Os pais eram divorciados, e a garota herdou dois irmãos por parte da mãe.

Os primeiros anos foram privilegiados. Os Ruston moravam numa propriedade chamada castelo Santa Cecília. Criada junto aos irmãos, ela desde cedo desenvolveu um jeito moleque. Não gostava de brinca com bonecas, preferia subir em árvores e fazer travessuras. Gostava de ouvir música clássica e de ler Rudyard Kipling e Robert Luis Stevenson. Graças ao ambiente em que vivia, ela nasceu poliglota, falando inglês, francês, flamengo e holandês. Seu maior sonho era ser bailarina. A postura impecável e o andar de pluma vieram das aulas que adorava freqüentar.

Nessa época, seus pais se envolveram com sir Oswald Mosley, defensor do fascismo na Inglaterra. Quando a família se mudou para Londres, a atividade política do casal tornou-se intensa, deixando de cabelos em pé o pai da baronesa, que temia que a filha virasse nazista. Um dia, quando Audrey tinha seis anos, seu pai saiu de casa e nunca mais voltou. “Foi o maior trauma da minha vida”, recordava. “Minha mãe chorava dia e noite. Era assustador ver seu rosto coberto de lágrimas. Esse dia ficou guardado em mim, afetando meus relacionamentos. Quando me apaixonei e me casei, vivia sob o temor de ser abandonada. Aprendi que é impossível amar sem o medo da perda”. A verdade é que Joseph foi embora pelas mãos do barão que, ao que parece, ameaçou o genro com um processo por ter desviado dinheiro da família para o partido.

Quando a guerra foi declarada, a baronesa decidiu ficar com os filhos na Holanda, prevendo a invasão da Inglaterra. A ocupação inglesa nunca aconteceu, mas em 1940 os alemães invadiram a Holanda, dando início ao capítulo mais sombrio da vida de Audrey. Desde a terrível visão dos judeus sendo encaixotados em trens e levados para os campos de extermínio, passando pela fome e culminando com a execução de um tio, a fuga do irmão mais velho e o envio do outro para trabalho forçado. Além do confisco dos bens da família e das péssimas condições de vida, ela teve de interromper os estudos de balé, após o bombardeio da escola. Ao fim da guerra, Audrey voltou com a mãe à Inglaterra só para estudar dança. Aos dezessete anos e com pouca prática, seu sonho de tornar-se bailarina ficava mais distante.

“Meu Deus, esta é a minha Gigi!” exclamou a escritora francesa Collete ao deparar com Audrey nas filmagens de Monte Carlo Baby, em Mônaco. Era 1951 e as necessidades financeiras a forçaram a trabalhos como modelo e atriz, fazendo pontas em filmes insignificantes e em espetáculos musicais. Collete conseguiu que a mocinha inexperiente fosse a protagonista da versão de seu famoso romance na Broadway. O sucesso da peça foi imediato. Na época, o diretor William Wyler estava em Londres se preparando para seu próximo filme, “A Princesa e o Plebeu”, e aproveitou para testar algumas candidatas. “Eu não tinha idéia de quem era Wyler. Era muito inexperiente e fui à entrevista de farra”, ela contou. Além de estrear nas telas sob a batuta do diretor de “Ben-Hur”, ela teve a chance de contracenar com Gregory Peck. “A última coisa que uma atriz deve ser é tímida, e sou muito tímida”, admitiu. “Morria de medo de entrar em cena e não tinha técnica nenhuma”.

Audrey teve aquela sorte que persegue as pessoas de alma iluminada: interpretar uma princesa. Segundo a figurinista Edith Head, “ela tinha pose de duquesa de Windsor”. Sua atuação foi tão encantadora que Peck exigiu que seu nome fosse colocado ao lado do seu no cartaz. As filmagens em Roma foram descontraídas, como a cena em que ela vai à Boca da Verdade, uma relíquia esculpida no Coliseu, e o ator decidiu assusta-la. “A lenda diz que ali dentro há um monstro que devora a mão de quem não diz a verdade”, Peck explicou. “Eu devia enfiar a mão na fenda e fingir que ela tinha sido comida. Audrey não estava preparada para o meu truque, com a mão escondida no paletó.” Houve momentos difíceis, como a cena da despedida no carro. “Eu tinha de chorar e não conseguia verter uma lágrima. Então Wyler gritou: que diabos! Não acha que já deveria saber o que é atuar?!:” O artifício funcionou: magoada, ela explodiu em lágrimas. A Academia também se rendeu ao carisma de Audrey e ela arrebatou o Oscar de atriz logo no seu primeiro filme. Foi indicada mais quatro vezes e levou um Oscar pelo conjunto da obra. “Fui praticamente jogada nessa profissão, indo de um filme a outro como se estivesse tentando alcançar a mim mesma”, analisava.

Depois de sua estréia nos cinemas, a vida de Audrey foi digna de um conto de fadas. Ela reinou absoluta, tornando-se uma das atrizes mais bem pagas da época – um milhão de dólares por filme – e provou que podia ser mais do que uma princesa: foi a filha de um motorista em Sabrina, freira em Uma Cruz à Beira do Abismo,viúva em “Charada”, florista em “Minha Bela Dama”, cega em “Um Clarão nas Trevas”, intelectual em “Cinderela em Paris” e até garota de programa em “Bonequinha de Luxo”. Truman Capote, o autor do romance em que se baseou este último, não escondeu o desgosto por não ter Marilyn Monroe no papel da sensual Holly Golightly – mas foi justamente com esse filme que a imagem da atriz ficou gravada na memória do público.

Audrey teve o privilégio de ser dirigida por Billy Wilder. King Vidor, Fred Zinneman, John Huston e Stanley Donen. Atuou ao lado de gigantes com Cary Grant, Gary Cooper, Humphrey Bogart, Fred Astaire e Henry Fonda.Ao contrário de muitas atrizes que trabalhavam a toque de caixa, ela fazia no máximo dois filmes por ano. Sua filmografia não pode ser considerada extensa: 26 produções, contando seis títulos insignificantes do início de carreira. Audrey era extremamente profissional e uma atriz dedicada, mas atuar não era prioridade em sua vida.

Por ter vivido reclusa na adolescência, Audrey teve seu primeiro romance aos 21 anos. Ela se apaixonou pelo cantor Marcel Le Bom, que se dizia um novo Maurice Chevalier, mas a carreira ascendente de ambos e a agenda lotada dele deram fim ao namoro. Com o playboy James Hanson, a coisa foi mais séria: os dois ficaram noivos, mas novamente o trabalho acabou separando-os. Durante as filmagens de Sabrina, ela descobriu o que era o estrelismo. Humphrey Bogart passava o dia reclamando por contracenar com uma atriz inexperiente. Intimidada pelos maus modos do ator, ela encontrou consolo nos braços de William Holden, com quem iniciou um romance apaixonado. “Audrey despertava sentimentos paternais nos homens”, observou Holden. Havia, porém, vários empecilhos: Holden era casado, tinha feito vasectomia e, pior, era alcoólatra (morreu em 1981, após um tombo durante uma bebedeira). O caso terminou junto com as filmagens.

Durante um coquetel na casa de Gregory Peck ela foi apresentada a Mel Ferrer, doze anos mais velho, e que despertou na atriz uma imagem de segurança. Juntos, estrelaram na Broadway a peça “Ondine”, que rendeu à Audrey o prêmio Tony. Casaram-se em 1954. Audrey nunca escondeu que queria ser mãe e esposa acima de tudo – inclusive da carreira. O casal comprou uma casa dos sonhos na Suíça: uma construção de 1730, próxima a Lausanne. Nessa propriedade cercada por um pomar, cheia de flores e de animais, Audrey pretendia se dedicar só à família. Mas logo ela sofreu dois abortos, que a deixaram arrasada. O marido a presenteou com o terrier Mr. Famous, que ela tratava como se fosse um filho. Quando  engravidou novamente, em 1959, ela fez repouso absoluto até dar à luz um menino, Sean Ferrer.

Audrey voltou ao estrelato, com o marido como produtor e diretor de filmes como “Um Clarão nas Trevas” e “A Flor que Não Morreu”. Mas na medida em que suas carreiras evoluíam em sentido contrário, Mel tornou-se ciumento do sucesso de Audrey e também de suas finanças e compromissos. Dizem que o ponto final do casamento de treze anos teria sido o romance que ela teve com Albert Finney nos sets de “Um Caminho para Dois”.

Desiludida, Audrey saiu num cruzeiro pela Grécia – e nele conheceu o psiquiatra italiano Andrea Dotti. Se no cinema ela contracenava com homens que poderiam ser seu pai, na vida real ela tinha uma queda pelos mais jovens. Nove anos mais moço e ultra-romântico, Dotti parecia ter a palavra “playboy” escrita na testa. Carente, ela caiu na rede e eles se casaram.

Em 1968, no auge da carreira, Audrey deixou o cinema para se tornar a Sra. Dotti. Deu à luz outro menino, Luca, e parecia feliz. “Não sinto falta do trabalho. Acho divino poder dormir de manhã e ficar esperando os meninos voltarem da escola”, declarava. O problema é que Dotti revelou-se um legítimo Don Juan e volta e meio era visto com outras mulheres. Seu retorno ao cinema, oito anos depois, tenha sido um modo de espairecer. Embora filmes como “Robin e Marian” não tenham feito muito sucesso, ela foi recebida de braços abertos pela crítica. “Aguintei tanto tempo com Dotti por causa de Luca. Não queria que ele crescesse sem pai, como eu”, disse ao fim do casamento de dez anos.

Recém-separada e já na casa dos cinqüenta, ela parecia decidida a não ficar sozinha. O eleito da vez foi Bem Gazarra, seu par em “Muito Riso e Muita Alegria”. Dizem que ela o perseguiu com tanta voracidade pelos sets que, assustado, o ator decidiu desencoraja-la, aparecendo sempre acompanhado de uma jovem. Audrey, porém, logo conheceu o ator alemão Robert Wolders, oito anos mais novo. Eles nunca se casaram, mas em Wolders ela encontrou o homem capaz de devolver seu amor. “Para Robby, tudo está bom, se estiver comigo. Demorei a vida toda para acha-lo, mas antes tarde do que nunca”.

Em 1953, quando se preparava para fazer “Sabrina”, Audrey foi a Paris conversar com o jovem estilista Hubert de Givenchy. Informado de que Miss Hepburn assistiria ao lançamento de sua coleção, Givenchy se preparou para receber a estrela Katharine Hepburn – e ficou desapontado quando em seu lugar entrou Audrey. No mesmo dia, porém, deram início a uma amizade para toda a vida. “Givenchy ficou do meu lado nos bons e nos maus momentos. Posso estar em qualquer parte do mundo: ele sempre estará junto. Num buquê de flores, num bilhete, num telegrama, numa palavra”, ela contou. “Audrey me inspira. Ela sabe o que quer e o que lhe cai bem. É impecável”, derramava-se Givenchy.

Audrey tornou-se a vitrine do amigo que, para ela, criou modelos que ditaram moda. A atriz ficou furiosa quando a figurinista Edith Head não deu crédito a ele ao levar o Oscar por “Sabrina”. Afinal, as calças cigarettes copiadas por todas as jovens eram mérito do amigo. Foi com o pretinho usado em “Bonequinha de Luxo” que ela causou o maior impacto: as mulheres passaram a usar vestidos pretos e curtos, penteados em forma de colméia e enormes óculos escuros.

Ao encerrar a era das mulheres exuberantes, Audrey abriu espaço para a simplicidade e a elegância. Nos sets, não tinha chiliques: “Era trabalhadora, pontual, sensível e modesta”, elogiava George Cukor, diretor de Minha Bela Dama. Com seu jeito de princesa, ela conquistou o respeito da imprensa, que não tinha coragem de esmiuçar sua privacidade. Audrey, porém, possuía suas manias. Quando filmava em locação, fazia uma mudança de dezenas de volumes. Lavava roupas de cama e mesa, talheres, a louça mais apreciada, além de quadros, livros, fotografias e discos preferidos. Ela também soube usar sua influência, quando exigiu a demissão do cinegrafisa Claude Renoir ao ver William Holden envelhecido no copião de “Quando Paris Alucina”.

Como toda lady que se preza, Audrey fumava de piteira, andava com leveza e tinha um cachorrinho que borrifava de perfume e carregava no colo. Mas por trás da imagem glamourosa, havia uma personalidade incomum. Introspectiva e generosa, ela parecia nunca pensar em si mesma. Educada com rigidez, não se esquecia dos ensinamentos da baronesa: “Lembre-se sempre dos outros primeiro. Não fale de si mesma. Você não é interessante. Os outros é que importam”. Audrey conta que a mãe não era das mais carinhosas. “Um dia ela disse: para quem não tem talento, é extraordinário onde você conseguiu chegar”, recordou. Por trás daquele sorriso tão suave existia, portanto, uma alma cheia de carências e de inseguranças.

Foi por minha mãe que eu comecei a trabalhar, e minha maior alegria foi poder ajuda-la, e ao meu pai”, afirmou. Quando estava casada com Ferrer, Audrey reencontrou o Sr. Ruston. A atriz sustentou-o até o fim da vida, mas jamais recebeu carinho em troca. Não é à toa que Audrey adorava tanto os animais e as crianças. “Não há criatura mais carinhosa que a criança, que lhe dá um sorriso sem você pedir”, comentava.

Talvez por isso Audrey tenha assumido o cargo de embaixadora da Unicef, que levou a estrela a lugares como a Etiópia e a Somália para dar apoio e carinho às crianças assoladas pela fome e pela pobreza. “Eu me preparei para esse trabalho por toda a vida, e finalmente pude realiza-lo”, dizia, Embora tenha sido o símbolo da realeza de Hollywood, coube a Steven Spielberg dar-lhe seu papel mais apropriado. Audrey estava luminosa em sua última aparição, em “Além da Eternidade” – interpretando, lógico, um anjo.

Filmografia:

1948 – Dutch in Seven Lessons (documentário)
1951 – Nous Irons à Monte Carlo
1951 – Laughter in Paradise
1951 – One Wild Oat
1951 – O Mistério da Torre (The Lavender Hill Mob)(1951)
1951 – Young Wives’ Tale
1952 – The Secret People
1952 – Monte Carlo Baby
1953 – A Princesa e o Plebeu
1954 – Sabrina
1956 – Guerra e Paz
1957 – Cinderela em Paris
1957 – Amor na Tarde
1959 – A Flor Que Não Morreu
1959 – Uma Cruz À Beira do Abismo
1960 – O Passado Não Perdoa
1961 – Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de Luxo no Brasil)
1961 – Infâmia
1963 – Charada
1964 – Quando Paris Alucina
1964 – Minha Bela Dama
1966 – Como Roubar Um Milhão de Dólares
1967 – Um Caminho Para Dois
1967 – Um Clarão Nas Trevas
1976 – Robin e Marian
1979 – A Herdeira
1981 – Muito Riso e Muita Alegria
1989 – Além da Eternidade

Trailer: Bonequinha de Luxo

Moonriver, em Bonequinha de Luxo:

Tributo:


Galeria de Imagens: