Ciclo o Expressionismo Alemão: O Gabinete do Dr. Caligari (1919)

O GABINETE DO DR. CALIGARI
Título Original: Das Kabinett von Dr. Caligari
Título em Inglês: The Cabinet of Dr. Caligari
País: Alemanha

Ano: 1919
Duração: 78 min.
Direção: Robert Wiene
Produção: Erich Pommer
Roteiro: Carl Mayer e Hans Janowitz
Fotografia: Willy Hameister
Direção de Arte: Herman Warm, Walter Rohring e Walter Reimann
Vestuário: Walter Reimann

Elenco: Conrad Veidt, Werner Krauss, Friedrich Feher, Lil Dagover,
Hans H. Von Twardowski, Rudolf Klein-Rogge, Rudolf Lettinger.

Sinopse:
O Dr. Caligari chega com seu show itinerante a um vilarejo italiano e chama a atenção da população para Cesare, o sonâmbulo que mantem sob hipnotismo durante duas décadas. O que ninguém sabe é que Caligari usa Cesare como sua marionete para que este cometa assassinatos.

Marco do expressionismo alemão, carregado de tons surrealistas graças à fotografia de Willy Hameister e ao design de Herrmann Warm, Walter Reimann e Walter Rohrig, cujos cenários e iluminação acentuam o clima de pesadelo e são responsáveis pelo fascínio que este clássico exerce até os dias de hoje. O diretor Wiener superou o baixo orçamento e além das inovações estéticas geniais, privilegiou o aspecto psicológico dos personagens, filmando a partir do ponto de vista de um louco.

O primeiro cult movie da história do cinema

“Das Kabinett des Doktor Caligari”, sob a direção de Robert Wiene, rodado no inverno de 1919 e estreado em 27 de fevereiro de 1920, foi não apenas um dos primeiros filmes a serem produzidos em estúdio e um dos primeiros filmes de suspense produzidos, mas também marcou época na história do cinema mudo alemão e mundial. Jamais houve nenhuma outra produção comparável a essa obra-prima do Expressionismo alemão da década de 20. O expressionismo, ou aquilo classificado como, distorce a realidade na intenção de causar um efeito emocional. No cinema isso acontece através da quebra de perspectiva e do jogo de sombras. O que muitas vezes passa inaudito é a ruptura com a decupagem clássica e suas regras de continuidade e os padrões de coerência espacial.

Além de ser o filme mudo alemão mais famoso, “O Gabinete do Dr. Caligari” também entrou para a história do cinema por ser o mais famoso filme sobre psiquiatria, projetando na tela, como num delírio, toda a ambivalência da alma humana. O vanguardismo da produção reside também na forma como ela é narrada: através da visão de um louco, em uma combinação de ousadia artística dos seus realizadores e de poucos recursos de produção que resultaram num cult movie indiscutível. As figuras centrais do filme são o hipnotizador Caligari, que se apresenta num parque de diversões e o seu médium Cesare, um sonâmbulo que mata várias pessoas sob hipnose e às ordens de seu mestre. O estudante Francis reconhece Cesare, quando ele arrasta sua amada, Jane. Francis acaba desmascarando a vida dupla do Dr. Caligari, pois além do seu show como hipnotizador, ele é diretor de um hospital psiquiátrico. Caligari tem um ataque e é levado pela polícia.

Esta história de suspense e de terror, até certo ponto banal, é a trama do filme. Mas o verdadeiramente genial é a existência de uma história dentro da história, pois quando se pensa ver o Dr. Caligari preso ou numa cela do seu próprio manicômio, ei-lo no banco do parque do hospital psiquiátrico como seu diretor, enquanto Francis, Jane e Cesare também estão por lá em outros papéis. Na realidade, o louco é Francis, que estaria contando a estória a outro paciente. Quanto ao Dr. Caligari, ele aparece nessa segunda trama como o bondoso diretor do hospital. E quando Francis, em sua mania, chama Caligari de louco, o doutor considera o fato uma projeção de seu mal, e um bom sinal de que Francis está melhorando.

“O Gabinete do Doutor Caligari” é um filme expressionista por excelência, por muitos tido como o primeiro. A narrativa se passa em flashback , enquanto Francis relembra os terríveis acontecimentos decorrentes de seu encontro com o famigerado doutor. Entramos, então, num sonho maluco com cenários e personagens bizarros. O personagem de Werner Krauss, por exemplo, nos dá a dimensão da insanidade obscura da narrativa a seguir, sua figura corcunda e o olhar perturbador parecem proferir uma ameaça constante. Aqui há algo de premonitório no uso do conhecimento de seu personagem para o mal, como se os acontecimentos do entre-guerras soprassem aos ouvidos do diretor alemão o mau augúrio de seu país.

Filmado como um delírio, e ao mesmo tempo ousado ao derrubar todas as certezas quanto ao que é normal e anormal. No entanto, não foi a temática nem a trama que ligaram o filme às correntes expressionistas da época. Foi o seu design único e revolucionário nos começos do cinema: os cenários e ângulos de câmara distorcidos, os estranhos efeitos de luz e sombra na composição dos climas psicológicos. Tendo pouco dinheiro à disposição, os realizadores usaram e abusaram da imaginação. Em vez de tentar imitar a natureza em caros cenários realistas, criaram um misterioso mundo de madeira e papelão, em branco e preto, como num pesadelo. O resultado foi um cenário de casas tortas, cubistas, corredores e caminhos kafkianos que parecem intermináveis e que são complementados por uma maquilagem tétrica, e pelos figurinos sombrios, bem como uma mímica expressiva e a inigualável presença criada pela linguagem corporal dos atores. Do meio em diante, a montagem se torna rápida, com uma seqüência de ações em paralelo, a trama se complica e tudo passa tão rápido que a história parece se tornar uma espiral de acontecimentos fatídicos.

O final do filme é uma provocação, deixando em aberto o que é real e o que é alucinação e levantou teorias de ter sido inserido depois de concluída a gravação, a despeito dos roteiristas. O prólogo e o epílogo efetuam uma quebra no estilo do filme, exceto pelo manicômio, cujo cenário continua o mesmo. Além disso, a parte final caminha para uma lição de moral completamente adversa ao intuito inicial dos roteiristas de “denunciar o absurdo de uma autoridade social”. Mas ao mesmo tempo, ao fazer isso, cria-se aquela ambigüidade que joga com a realidade aparente e a pura ilusão dos sentidos. “O Gabinete do Dr. Caligari”, nesse sentido, é o próprio cinema, a arte da ilusão.

O filme permaneceu com toda a sua atualidade, ao expor, noventa anos depois, os efeitos do autoritarismo, do despotismo, da tirania e da influência das massas através do hipnotismo, como um retrato social e político de uma Alemanha arrasada após a Primeira Guerra e antecipando os pensamentos políticos que culminariam na ascensão do nazismo na década seguinte, e também pela ligação estilística da arte moderna com as diversas formas de loucura. O primeiro cult movie da história do cinema.

O Vulto Máximo do Expressionismo
Por E.R.Corrêa

“No ano de 1783, um místico chamado Dr. Caligari, perambulava pelas cidades do norte da Itália com um sonâmbulo de nome Cesare, apresentando-se nas quermeces. E, durante meses, manteve uma cidade após a outra em pânico, com assassinatos que sempre ocorriam sob as mesmas circunstâncias, nas quais ele levava o sonâmbulo, que estava sob seu inteiro controle, a executar seus planos aventureiros. Colocando um boneco no lugar de Cesare, quando este não estava em seu caixão, o Dr. Caligari conseguia afastar qualquer suspeita de culpa do sonâmbulo.”

Este é o pequeno prefácio que dá início ao filme “O Gabinete do Dr. Caligari” (Das Kabinett von Dr. Caligari, ALE, 1919), um dos maiores clássicos do horror. Dirigido por Robert Wiene, esta obra-prima do cinema mudo, forma, ao lado de “Nosferatu” (1922) e “Fausto” (1926) a “santíssima trindade” do cinema de terror expressionista alemão; e incorporam o que há de mais sombrio e expressivo na arte cinematográfica.

São filmes que pertencem a tradição do pessimismo pós-guerra, uma vez que foram realizados numa das fases mais conturbadas da história alemã: o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). E como tal, voltam-se para um horizonte negativo, onde o domínio da sombra é quase que absoluto. Em “O Gabinete do Dr. Caligari” (o filme que deu origem ao expressionismo cinematográfico alemão), o contraste luz e sombra é aterrador quando analisado em sua essência. Foi o filme que estabeleceu os padrões gerais para o expressionismo, usando e abusando do jogo de luz e sombra, ângulos imprevistos, movimentos rápidos e retilíneos, cenários tortuosos e desfigurados, tudo envolto numa atmosfera sobrenatural que surpreende os desavisados até hoje. Por estes e outros elementos, que Wiene soube explorar até a exaustão, este filme é considerado a primeira obra-prima do cinema de horror.

E com todos os méritos, pois foi, certamente, um dos primeiros também, a incorporar o horror ao suspense; a fonte que alimentou e serviu de referência para os filmes posteriores, com situações inusitadas e personagens que vivem em um mundo sombrio, onde nada é espontâneo ou natural, mas sim fruto do desespero e da demência.

Como legítimo exemplo do expressionismo, este filme foi todo rodado em estúdio (Nosferatu foi o único a abdicar esta tradição ambientando-se ao ar livre) e os cenários, na maioria feitos de papelão e madeira, são completamente desfigurados e encaixados sem nenhum padrão ou norma pré-estabelecida, o que o torna mais sombrio e reflete-se como um hórrido pesadelo.

Robert Wiene (inspiradíssimo!) orquestrou uma sequência arrasadora de imagens insólitas e sufocantes, num verdadeiro show de demência. É impressionante a criatividade de Wiene, pois o diretor não só conseguiu, logo no início da história do cinema, relatar uma história de horror, temperada com um requintado suspense, como criar uma das mais originais sequências do cinema mudo; as imagens mostram que não é necessário o uso de diálogos para relatar a aflição e a neurose humana.

Inclusive Alfred Hitchcock (o maior mestre do suspense, conhecidíssimo por seu filme Psicose – 1960) certamente “bebeu” em “O Gabinete do Dr. Caligari” para elaborar a sequência de imagens de seus principais filmes, notadamente os contrastes de luz e sombra, sempre sugerindo as cenas e nunca as evidenciando, uma das características básicas do gênero.

A trama do filme é basicamente simples (mas muito original). É a sombria história do Dr. Caligari (interpretado pelo magnífico Werner Krauss), um mestre do hipnotismo, que mantém o sonâmbulo Cesare (interpretado pelo jovem Conrad Veidt) em estado de transe por 23 anos ininterruptos. Em total sonambulismo, Cesare é apresentado pelo doutor Caligari em feiras e quermeces de pequenos vilarejos da Itália. De fato, as apresentações do Dr. Caligari despertavam a curiosidade da população. Até aí tudo bem. O caso é que o velho hipnotizador, através de seus métodos eficientes, induz o jovem Cesare a cometer assassinatos noturnos pelas cidades onde faz suas apresentações. Durante vários meses, o Dr. Caligari manteve muitos vilarejos em pânico, sempre com assassinatos insolúveis e indecifráveis. E não é só. Ele também colocava um boneco no caixão onde Cesare “dormia” para encobrir o pobre rapaz, caso este fosse tido como suspeito.
Tudo ia perfeitamente bem para o velho mestre até que um jovem começa a suspeitar do sonâmbulo e consequentemente avisa as autoridades, que por sua vez saem ao encalço do Dr. Caligari. Este é finalmente pego em seu gabinete, enquanto Cesare continua solto pela cidade, e após uma frustrada tentativa de rapto a uma garota, foge de seus perseguidores.

Um filme surpreendente e que talvez seja ainda mais gótico em sua essência que o próprio “Nosferatu”.

O expressionismo cinematográfico que nascera com este filme, duraria até 1933, passando por clássicos admiráveis deste gênero artístico tão prolífero que é o horror.

Obras como “Nosferatu” (1922), “Orlacs Haende” (1925), “Fausto” (1926), “Metropolis” (1926), “M, O Vampiro de Dusseldorf” (1931), “Frankenstein” (1931), “O Médico e o Monstro” (1931) – estes três últimos já incorporados ao cinema sonoro, mas ainda com características expressionistas – são definitivas.

Antes de “O Gabinete do Dr. Caligari”, filmes importantes já haviam sido feitos como “O Golem” (1915) e “Homunkulus” (1916) e já davam os primeiros passos para o expressionismo, mas somente com o advento da obra de Wiene nasceria o expressionismo propriamente dito. Em 1933, com o domínio nazista, a Alemanha veria o fim deste movimento cinematográfico admirável, que nos legou obras inigualáveis.

Para ler mais sobre “O Gabinete do Dr. Caligari”, clique aqui.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0010323/

Filme Completo:

Galeria de Imagens:

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