A Arte de Assistir Filmes Mudos

Os filmes do período silencioso não são de forma alguma essenciais para que se conheça a sétima arte de uma maneira geral. Para qualquer pessoa que apenas procura um bom filme para se entreter durante duas horas, o cinema contemporâneo está repleto de boas opções. Para muitos cinéfilos que buscam filmes mais profundos, o desaparecimento das fronteiras políticas e a popularização da Internet permitiram que muitas obras de países que no passado dificilmente chegavam até nós, hoje possam ser vistas e apreciadas não só nos cinemas especializados, mas através de DVDs, TV por assinatura e pela Internet. Ao mesmo tempo em que essa demanda por novos filmes aumentou com o aumento dos meios de exibição dos mesmos – não mais restritos às salas de cinemas – tornou-se também cada vez mais raras as reprises de filmes clássicos, hoje restritos às Mostras de Cinema e aos canais especializados como o TCM e o Telecine Cult. Isso é ainda pior para os filmes do período silencioso.

Nos primórdios, quando o público se sentava no escuro de uma sala para ver as imagens projetadas na tela enquanto fachos de luz cintilavam sobre suas cabeças, a experiência poderia ser associada a uma apresentação de balé ou de teatro kabuki. Em geral com uma pequena orquestra acompanhando a exibição do filme, o público se deleitava com uma experiência puramente visual como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, mas também porque aquela era a única experiência cinematográfica que eles tinham na época. O advento da cor não foi tão prejudicial quanto o surgimento do som. Muitos realizadores continuaram filmando em preto e branco durante décadas desde a invenção dos primeiros sistemas de cores, sobretudo do revolucionário Technicolor. Mas o advento do som causou um rebuliço de tal modo avassalador na indústria de cinema que muitos estúdios e artistas caíram em desgraça por não estarem prontos para aquela súbita revolução.

“Nós não precisávamos de diálogos, nós tínhamos rostos!”
A frase dita por Norma Desmond, a esquecida atriz do cinema mudo vivida por Gloria Swanson (outra diva do período silencioso, porém na vida real), em “Crepúsculo dos Deuses” ilustra bem a ideia de que um filme silencioso pode pesar muito na visão de um espectador moderno, pouco adepto aos métodos de atuação do cinema mudo. Após 10 minutos de puro silêncio, muitos irão reclamar da experiência meramente visual e desejar por diálogos, mesmo que sejam escritos por Luc Besson, Joe Eszterhas ou George Lucas.

Como os atores da época tinham que saber tudo sobre as técnicas corporais e faciais de expressão, suas atuações muitas vezes podem cair no ridículo aos olhos do público moderno. Mas acredite que todo aquele exagero cênico, que beirava o caricatural, era necessário, pois sem ele o cinema mudo implodiria em um silêncio incompreensível. Mas por causa desse estilo de atuar, o drama por mais raro e intenso que fosse nos filmes mudos não deixam de ser hilariantes por conta de um balé de gestos e expressões forçadas para qualquer um que estude arte dramática na atualidade.

Por isso, nos primórdios do cinema mudo, o gênero que mais se prestou a esse tipo de atuação foi mesmo o da comédia pastelão, a ação e a aventura, porque neles – e isso ainda se nota nos dias de hoje nos filmes de Mr. Bean ou na série Indiana Jones – nos quais não se precisa de muitos diálogos para produzir uma resposta emocional no público. Por mais complexa que seja a trama, é evidente a facilidade com que compreendemos a maioria das cenas. O sucesso de comediantes como Chaplin, Keaton e Lloyd nesse período somente encontrava equivalente nos filmes de aventura protagonizados por Rodolfo Valentino e Douglas Fairbanks. Para outros espectadores mais exigentes, ainda havia os filmes de terror de Lon Chaney e os romances com Greta Garbo. Mas ainda era muito pouco.

A necessidade de se libertar do corte contínuo e da narrativa linear que causava enfado quando os filmes começaram a se tornar cada vez mais longos, fez com que alguns cineastas fossem obrigados a reinventar as técnicas de narrativa da época, apenas para tornar menos maçante para o público a experiência visual de se sentir preso à uma tela por duas horas ou mais. D.W. Griffith, um dos pioneiros da indústria cinematográfica percebeu o potencial da montagem e inventou as linhas de tempo em seus filmes, contando suas histórias através de flashbacks, cortando a ação para trás e para a frente, além de montagem paralela, que fazia cair por terra os laços ranzinzas que prendiam os filmes às peças de teatro e que ainda hoje influenciam o modo como os filmes são feitos.

O uso de intertítulos acabou se tornando um tiro no pé para muitos cineastas que desenvolviam histórias tão intrincadas que o público se cansava de ler tantas legendas na tela para poder acompanhar a história. Esses filmes representavam para os espectadores daquela época uma experiência tão maçante quanto hoje são para alguém que nunca viu um filme mudo antes, e que provavelmente nunca mais irá querer ver outro filme assim pelo resto de sua vida. Outra dessas invenções foi utilizar o som (seja uma linha de diálogo ou efeito sonoro) de forma sincronizada com o que se passava na tela, como algo que um personagem diz ou ouve. Havia poucos recursos para ajudar os realizadores até então, como por exemplo, o uso de trilha sonora pontuando os momentos mais importantes da história, mas nada que representasse um método confiável para seduzir o público ao apresentar a ele uma experiência auditiva tão vívida quanto visual.

Mas se você nunca assistiu um filme mudo em sua vida, e apesar de todas as advertências feitas até aqui ainda deseja assistir e ter uma experiência emocional inesquecível ao mesmo tempo, não existe outro filme mudo que eu possa recomendar além de “A Paixão de Joana D’Arc”. O diretor dinamarquês Carl Theodor Dreyer contou os últimos dias de vida da heroína vivida por Maria Falconetti basicamente através de planos fechados e close-ups em 82 minutos do mais completo silêncio. Ao final do filme, você compreenderá porque Norma Desmond tinha razão em dizer aquela frase.

Por isso, fazer não um filme mudo, mas um filme sem diálogos é tarefa para poucos no cinema contemporâneo. Nos anos 80, o diretor italiano Ettore Scola surpreendeu a crítica com um musical onde não havia qualquer diálogo, apenas a música para contar a história de um salão de dança ao longo de várias décadas em seu maravilhoso filme “O Baile” e conseguiu ser totalmente inteligível e bem sucedido em suas intenções.

Recentemente, foi a vez do diretor Michel Hazanavicius com o consagrado “O Artista” ressuscitar a arte de contar uma história sem diálogos, em um longa-metragem ainda por cima com fotografia em preto e branco. “O Artista” foi o primeiro filme mudo a ganhar o Oscar desde “Asas”, de 1927, um feito mais do que surpreendente porque além do sucesso com a crítica, o filme foi muito bem recebido pelo público.

Tudo isso que foi dito aqui foi em uma tentativa de explicar porque o público fugiu tão rapidamente dos filmes mudos logo após a introdução do som. Os espectadores não eram felizes com aquela situação. O problema é que eles não tinham qualquer escolha. Mesmo assim, ainda tiveram que se contentar em ver Carlitos atuando em silêncio por mais uma década.

Aqui no Assim Era Hollywood estarei sempre disposto a seguir com a minha intenção de divulgar apenas os melhores filmes da Era Dourada do Cinema, sejam eles mudos ou falados.

2 Respostas

  1. Há 2 anos me apaixonei pelo cinema mudo, cada filme que eu assistia tinha uma essência diferente, algo realmente inovador. Infelizmente não vejo a mesma coisa nos filmes atuais.. Muito difícil achar um filme com aquele “toque” que parecer que está dentro do filme

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