Ciclo o Expressionismo Alemão: A Morte Cansada (1921)

A MORTE CANSADA
Título Original: Der Müde Tod
Título em Inglês: Destiny/Between two Worlds
Título Original em Português: Pode o Amor mais que a Morte
País: Alemanha
Ano 1921
Duração: 105 min.
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang, Thea von Harbou
Produção: Eric Pohmer
Fotografia: Bruno Mondi, Erich Nitzschmann, Herrmann Saalfrank, Bruno Timm, Fritz Arno Wagner
Edição: Fritz Lang
Direção de Arte: Robert Herlth, Walter Röhrig, Hermann Warm
Elenco:
Lil Dagover, Walter Janssen, Bernhard Goetzke, Rudolf Klein-Rogge, Hans Sternberg, Erich Pabst, Edgar Klitzsch, Loisia Lehnert, Karl Rückert, Max Adalbert, Wilhelm Diegelmann, Karl Platen, Hermann Picha, Paul Rehkopf, Max Pfeiffer, Georg John.
Sinopse:
Recém-chegada a um vilarejo europeu do século XIX, A Morte compra um terreno ao lado do cemitério local, onde constrói um gigantesco muro ao redor. Segue um casal em lua-de-mel e leva o marido. Sua noiva, aos prantos, suplica que devolva a vida do seu amor. A Morte decide dar uma chance à jovem desesperada, prometendo devolver a vida do noivo se ela conseguir evitar a morte de uma das três vidas prestes a perecer.

Clássico do Expressionismo Alemão, é uma fantasia gótica inspirada nos sonhos de infância do seu diretor, uma obra-prima da fase muda alemã do mestre Fritz Lang (1890- 1976), com cenografia elaborada, fotografia expressionista muito bonita e efeitos especiais criativos que ajudam a criar o clima mágico do filme. Co-escrito por Lang e sua então esposa Thea von Harbou, é uma bela fábula romântica sobre a inexorabilidade do destino (é especialmente tocante o fato de a própria Morte sofrer com a dor de suas vítimas) e que inspirou outros clássicos, como “O Sétimo Selo” de Ingmar Bergman e influenciou e marcou muitos outros diretores, de Buñuel (que diz que esse foi o filme que o estimulou a ser cineasta) até Mario Bava e Terry Gilliam. Uma raridade pouco vista e que merece ser descoberta. Foi exibido no Brasil como “Pode o Amor Mais Que a Morte”. Conhecido por “Destiny”, no Reino Unido, este filme de Fritz Lang, de 1921, talvez tenha sido o primeiro de maior importância na carreira deste grande diretor, autor de “Metrópolis” e “M”, e que mais tarde iria para os EUA. Um ótimo filme mudo, com uma história bem interessante. Há toda uma metáfora em torno das luzes de velas representarem a vida e as velas, o tempo de vida dos homens. A história se divide então em três fases, acontecendo em três espaços e tempos diferentes e nelas, a mulher vive um personagem, seu noivo outro e a morte se disfarça de outros personagens, estando claro, sempre envolvida ou sendo instrumento da tragédia. Um filme bem complexo para 1921, com várias passagens e discussões, com Fritz Lang brincando com o tempo, introduzindo até mesmo um conceito de uma nova dimensão.

Um dos primeiros grandes trabalhos de Fritz Lang

Um desconhecido de capa escura se instala num pequeno vilarejo. Compra o terreno ao lado do cemitério, explicando que deseja fazer ali seu jardim e descansar da imensa fadiga de seu trabalho. Ergue um imenso muro, sem nenhuma passagem visível por onde se possa entrar ou sair. Uma jovem descobre quem ultrapassa aquelas paredes: os espíritos daqueles que acabam de morrer, entre eles o seu amado. O misterioso forasteiro é o próprio anjo da morte e nos seus domínios se vêem centenas de velas que representam as vidas humanas. Com ele a moça faz um trato: se conseguir salvar uma das três velas escolhidas entre tantas, terá seu amado de volta.

A história de cada uma das velas abre caminho para episódios folhetinescos que se passam em lugares exóticos. Numa cidade árabe, em Veneza durante o carnaval e na China imperial, um amor proibido entre dois jovens será perseguido pelas forças do poder (o califa, o aristocrata, o imperador), que conspiram para assassinar o herói. Cabe à jovem evitar que a morte leve a termo seu serviço. Movida pelo amor e não pela fé, a heroína torna possível um diálogo com a morte ainda que essa não seja em absoluto uma conversa entre iguais. As poderosas personagens femininas do cinema de Fritz Lang aparecem desde os filmes silenciosos e a heroína de “A Morte Cansada” é provavelmente a primeira da numerosa linhagem, que se firma a partir da colaboração com a roteirista Thea von Harbou, esposa do diretor, mas que se desdobra e se enriquece nas décadas seguintes, depois da separação do casal.

Com seus três episódios de aventura, “A Morte Cansada” compartilha com os seriados dos anos de 1910 a presença de mulheres que tomam a iniciativa da ação, protagonizando peripécias e lances sensacionais, no estilo Pearl White em “Os perigos de Pauline” e também Musidora em “Les Vampires”, essa última até inspiração direta no figurino adotado pela aristocrata do episódio italiano, apropriadamente vestida de malha preta e colante para um duelo de esgrima. O gosto de Lang pelas narrativas de aventura já vinha se aprimorando desde os roteiros escritos para Joe May nos anos 10 e nas duas partes de “As Aranhas” (1919-20), um de seus primeiros trabalhos de direção. Dois anos depois de estrear como diretor, Lang realiza “A Morte Cansada”, em que, sem descuidar do atrativo de um cinema de gênero, radicaliza o que nele pode haver de mais grave, transcendente e inescapável, o encontro entre vida e morte.

No livro “A tela demoníaca”, Lotte Eisner credita as partes mais sentimentais dos primeiros filmes de Lang a Thea von Harbou e “seu gosto duvidoso pelo melodrama empolado”. Essa leitura, além de expressar evidente desagrado com a roteirista, futura colaboradora do nazismo, tenta eximir o diretor do “mau passo” folhetinesco, tratando-o como deslize de juventude. O trabalho com o “melodrama sensacionalista” (para usar o termo de Ben Singer a propósito da produção cinematográfica mais popular dos anos 10) apura a relação particular que Lang estabelece com o cinema de gênero, desde os primeiros roteiros e filmes e ao longo de toda sua carreira, além de nos dar o imenso prazer de cenas com adagas envenenadas, perseguições com elefantes e cavalos mágicos, fuga pelo fosso do palácio, transformações de humanos em bichos e estátuas, tapete voador, cenários e figurinos exóticos.

Desde o título e ao longo de todo o filme, “A Morte Cansada” superpõe divino e humano, desdenhando também das fronteiras entre ação e metafísica, cinema de gênero e filme de arte. Realizado em 1921, na transição entre duas décadas, retoma procedimentos dos anos 10 (desde os seriados americanos e europeus às ambiciosas alegorias históricas de Griffith), reconfigurando-os para a década seguinte numa fábula atemporal (“Em algum tempo e em algum lugar”, diz o letreiro no início) conduzida por um olhar moderno que privilegia as contaminações às fronteiras definidas.

A morte que se ressente do cansaço tão humano, amaldiçoada na terra por cumprir os designos divinos, se afigura como uma das personagens mais solitárias da história do cinema. A destemida heroína, movida pela frase “O amor é mais forte que a morte”, terá seus momentos vilanescos ao deixar a compaixão de lado e propor a um mendigo ou a velhos moradores que troquem sua vida pela do jovem apaixonado. A mais bela história de amor do filme é sem dúvida a desse encontro improvável entre a morte e a moça, capaz de revelar um caminho de acesso entre os dois mundos, separados pela imensa muralha do desconhecido. As formas arrebatadoras criadas por Fritz Lang podem ter se tornado um clichê da crítica, mas nunca deixam de surpreender nos próprios filmes. Em “A Morte Cansada”, a imagem do muro sem entradas, que toma todo o quadro e diante do qual as figuras humanas se revelam minúsculas e vulneráveis, expressa os sentimentos mais primitivos de medo do desconhecido, do outro absoluto, ao mesmo tempo inexpugnável e inevitável. E a morte com sua capa preta, adquire forma humana e entre humanos transita – mas sob a materialidade do figurino e da maquiagem não parece existir corpo possível, é puro símbolo.

A primeira obra-prima de Fritz Lang, entrando no Expressionismo Alemão com um filme obscuro e humano

A morte chega num vilarejo perdido no tempo e compra um terreno ao lado do cemitério local, onde constrói um gigantesco muro ao redor dele. Sendo ela a única que conhece a entrada para a área murada, os habitantes da vila deixam de se preocupar com o estrangeiro misterioso e continuam suas vidas, nascendo e morrendo. Até que a morte segue um jovem casal em lua-de-mel, e resolve levar o rapaz para um passeio. Percebendo a longa ausência do marido, a garota vai à sua procura, até chegar ao cemitério, onde vê uma manada de almas adentrando o muro, sendo ele um dos mortos. Desesperada, ela vai buscar conforto na casa de um velho alquimista que lhe oferece ajuda. Lá, ela lê uma passagem na Bíblia que dizia que “o amor é mais forte que a morte”, e resolve se suicidar para se encontrar com a morte e pedir a vida do marido de volta.

Fritz Lang sempre foi considerado uma das grandes forças do Expressionismo Alemão, conseguindo destaque dentre nomes como Robert Wiene, Pabst, Murnau e Paul Wegener. Mas, ao contrário de seus compatriotas alemães e austríacos, o cinema de Lang sempre teve algo de diferente, de mais humanista. Expressionista num sentido muito mais intimista que propriamente estético, este se aproximava mais da corrente existencialista, precursora do expressionismo. Feito apenas dois anos após o marco inicial de “O Gabinete do Dr. Caligari”, a sociedade ainda estava imersa na atmosfera de medo e insegurança gerados pela Primeira Guerra, e todos os ‘escapismos’ para o suicídio ou para o misticismo, que predominavam na época, são retratados em “A Morte Cansada”. O próprio problema do ser em si mesmo acaba sendo o foco principal da narrativa. Mas não nos apressemos. Toda a atmosfera do filme remete ao fantástico, a uma visão de mundo que flerta com os contos do folclore germânico, começando com a própria presença da Morte e de um muro sem fim (numa aproximação kafkaniana da realidade), um alquimista e até a própria cidade, cujo caráter atemporal nos leva então às três estórias paralelas do filme.

Se o amor da jovem é, de fato, capaz de derrotar a morte, esta dá à garota três chances dela prová-lo e, assim, salvar a vida do marido. Numa sala cheia de velas (o escritório da morte), onde cada vela é uma vida, a garota é apresentada a três delas, e pelo menos uma tem de ser salva. Somos transportados então a três realidades alternativas à lá Intolerância, onde o casal é apresentado a um problema, e dele tem de sair vivo. A primeira estória é passada em alguma região islâmica, onde a garota é uma muçulmana e o rapaz um francês. Ele entra escondido numa mesquita para encontrar-se com a amada, mas é descoberto e sentenciado à morte. Ela o ajuda a fugir, mas os homens da guarda não tardam em achá-lo e matá-lo. Na segunda vela, somos transportados para Veneza, onde os dois são um jovem casal de namorados, mas o rapaz é jurado de morte por um nobre de alto escalão. A garota planeja matar o nobre e, para isso, manda-lhe uma carta pedindo sua presença fantasiada na noite de Carnaval, onde o chamaria para um amigável duelo de esgrima, usando a oportunidade para que um de seus servos esfaqueie o nobre pelas costas. Este descobre o plano, e envia a carta ao amante da jovem, que vai fantasiado e acaba apunhalado por engano. Na última estória, vamos para a China mística, onde os dois são um casal que mora nas montanhas com um velho mágico. Este é chamado pelo novo Imperador para festejar sua ascenção com truques de mágica, e os três vão até o local como combinado. Chegando lá, o imperador toma gosto por Tiao Tseng (a garota) e resolve levá-la como presente, enquanto aprisiona Liang (o rapaz), que fica a esperar por sua morte. Como a garota refuta os desejos do Imperador, este manda o velho mágico para convencer Tiao Tseng a ceder. Ela recusa, e rouba o cetro mágico do velho, usando-o para escapar com o marido. O Imperador manda sua guarda atrás deles, mas são todos derrotados. Vai então seu arqueiro particular, que encontra os dois disfarçados, e mata o rapaz.

No final das contas, o amor dos dois não foi suficiente. A morte estava sempre presente, fosse disfarçada de coveiro na primeira vela, de servo na segunda ou de arqueiro na terceira. Mas ela não assiste a tudo impassiva. À medida em que os dois se aproximam, ela se torna mais ousada. Na primeira, os dois são meros amantes, a própria fluidez da estória dá cabo deles; na segunda eles já eram noivos, e a morte interfere até certo ponto no desandar da coisa, apesar de apenas cumprir ordens da jovem; já na terceira eles eram casados, e a morte teve de ir pessoalmente caçá-los na floresta. Mesmo a garota tendo usado o cetro para transformar-se em estátua e o marido em tigre, a morte vê por dentro do disfarce deles, provando que dela ninguém escapa.

Com uma atuação séria e assustadora, mas completamente fora dos padrões, Bernhard Goetzke transforma a Morte no melhor personagem do longa. Ela, em momento algum, passa o ar de um ser malígno, um inimigo. Pelo contrário, ela tenta ao máximo ajudar a garota a reconquistar o amado, mesmo que nas três estórias ela intervenha contra este acontecimento (uma contradição da qual ela certamente está ciente). A Morte só cumpre ordens, e ela própria diz estar cansada desse trabalho, tendo que separar pessoas e famílias a mando do divino, o que também pode ser visto em seu olhar, sempre tranquilo, mas que parece se perder no nada, o que prova a perfeita escolha de Goetzke pro papel, tornando-se uma referência absoluta da Morte no cinema, infinitamente superior à morte de Bengt Ekerot em “O Sétimo Selo”. Aliás, Lang sempre escala muito bem seus papéis, e esta Morte está entre suas melhores escalações de atores, junto com Peter Lorre em “M – O Vampiro de Dusseldorf”, e “Dr. Mabuse” (inclusive, Goetzke é o inspetor do primeiro filme deste). Mesmo ofuscada, Lil Dagover tem uma boa atuação como a jovem, e várias chances de mostrar isso, ao encarnar quatro personagens diferentes (ao contrário do pouco tempo de tela que teve em “O Gabinete do Dr. Caligari”).

Sentimos toda sua angústia ao ver o marido morto, e todo o seu esforço cego e em vão para trazê-lo de volta (por si só, uma situação limite). Quando a Morte lhe dá uma última chance de trazê-lo de volta, oferecendo uma outra vida em troca, ela sai desesperada pela cidade à procura de alguém disposto a morrer, mas não encontra ninguém. Ela chega até a oferecer um bebê que achou num prédio em chamas, mas não foi capaz de dá-lo em troca do marido. Seu amor não é tão forte a ponto de sacrificar um recém-nascido, mas é forte o bastante a ponto de renunciar à própria vida (a válvula de escape do suicídio).

Ao contrário do longa de Griffith, este filme teve um baixíssimo orçamento, e ainda assim conseguiu criar visuais fantásticos (para saber de que Lang é capaz com muito dinheiro, vide “Metrópolis”). A Veneza do filme não tem muita graça, mas tanto o país islâmico quanto o vilarejo são retratados fielmente, e em grande escala. Já a China, por se tratar de uma cultura tão distante e, até certo ponto desconhecida para a época, é mostrada de uma maneira completamente fantasiosa e idealizada (lembrando em muito o curta “Le Thaumaturge Chinois”, do Méliès), com seus exoteirismos, guerreiros de espadas gigantes e arquitetura arrojada. Os efeitos também são de primeira linha, desde os fantasmas subindo a escadaria sem fim do muro até as viagens em tapete voador na China (mas esta perde para a viagem em Fausto que, apesar de não ter efeitos tão limpos, é mais inventiva).

Talvez o único aspecto ruim do filme seja sua super-exposição de letreiros, provando que este filme (e a obra do Lang em geral) é bem mais voltado para o cinema sonoro, ao contrário do que ocorre com Murnau, que utiliza-se de pouquíssimos letreiros (ou, no caso de “A Última Gargalhada”, nenhum), o que faz com que o filme flua bem mais. Este filme na época não fez sucesso, mas depois de um tempo foi relançado e virou um clássico cultuado que, entre outras coisas, inspirou Buñuel a querer ser diretor de cinema, algo que, por si só, já merece ser venerado (este inclusive homenageia o filme em “O Cão Andaluz”). Mas, mais que impulsionar o mestre surrealista, este filme foi a porta de entrada de Fritz Lang no movimento expressionista, assim como sua primeira obra-prima.

Para ler a Parte 1 (Artigos e Galeria de Imagens), clique aqui.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0012494/

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