Chaplin ou Keaton?

QUEM FOI O GRANDE ATOR DO CINEMA MUDO?

Muitas décadas depois do fim do cinema mudo, uma das maiores – senão a maior – estrela daquele período do cinema continua reconhecível aos olhos de toda uma geração que, mesmo que nunca tenha visto, se é que isso é possível, um filme seu, conseguirá de imediato associar a sua figura inconfundível à uma determinada cena, uma determinada situação. Enquanto muitos astros e estrelas tiveram seu brilho apagado ou ofuscado pelo passar dos tempos, Charles Chaplin continua vivo na mente das pessoas como uma matéria prima do inconsciente coletivo da humanidade, que adotou para sempre seu personagem Carlitos. Se fosse preciso escolher O Grande Ator do cinema mudo, Chaplin seria o meu escolhido. Não só como ator, mas como Artista completo. Sem entrar em outros detalhes, uma vez que Chaplin foi cineasta, compositor e montador de seus próprios filmes, e apenas analisando suas atuações à frente das câmeras, é possível dizer que não havia na antiga Hollywood ator melhor do que ele.

Muitos irão debater-se em controvérsias de que Buster Keaton e Harold Lloyd eram tão bons ou melhores que Chaplin. Os mais entuasiastas irão mencionar as performances memoráveis de Keaton em “A General” ou “Nossa Hospitalidade”, e de Lloyd em “O Homem-Mosca” ou “O Calouro”. Mas Keaton baseava suas atuações em performances meramente físicas, realmente invejáveis, assim como Lloyd, nos seus principais filmes. Chaplin realizava também atuações meramente físicas, gestuais, quase sempre caricaturais, mas nunca deixava de transmitir a emoção necessária no momento certo.

Quando se busca pela emoção e não mais as risadas, é impossível não se lembrar de Emmil Jannings. O mais respeitado ator dramático do cinema mudo, ele foi o primeiro a ganhar o Oscar por suas performances em “The Last Command” e “The Way of All Flesh” (este um filme considerado “perdido”), em uma época em que a Academia premiava pelo conjunto da obra em um determinado ano e não por atuações individuais. Mas Jannings abandonou Hollywood nos anos 30 para retornar à seu país natal e engrossar o coro de fanáticos por Hitler, tornando-se um ardente nazista. Depois disso, ninguém mais ouviu dizer seu nome e ele agora é tema restrito de estudantes de cinema. Outro bom ator dramático no período foi John Barrymore, ídolo das matinês, tão bonito quanto educado, mas que se deixou dominar pelo alcoolismo. Suas melhores atuações, porém, estão resumidas aos primeiros dias da era do som.

Há então os aventureiros, os atores carismáticos que faziam o público feminino lotar as salas de cinema e suspirar profundamente entre uma ou outra cena de ação e romantismo. O grande galã da época era Rodolfo Valentino, e também o primeiro símbolo sexual masculino do cinema, o eterno modelo do latin lover que se perpetuou na mente do público graças à sua atuação em “O Sheik”, filme pelo qual é mais conhecido, dos 38 filmes que fez. Sem dúvida, Valentino era um colírio para os olhos femininos da época, mas ele nunca foi considerado um grande ator. Seu maior rival nas matinês era o popular Douglas Fairbanks. Ele estreou grandes filmes de aventura no começo dos anos 20 e teve uma carreira muito bem sucedida: foi co-fundador da United Artists, campeão de bilheteria em todos os filmes que estrelou e ainda casou-se com a queridinha da América Mary Pickford. Ele ganhou um Oscar honorário em 1940, mas era melhor espadachim, pirata ou ladrão nas telas do que ator dramático.

Para destronar Chaplin ou Keaton, como insistem alguns, do posto de melhor ator do cinema mudo, não existe outra figura senão a do lendário Lon Chaney, sempre reconhecido por seu brilhante trabalho de maquiagem e caracterização em filmes como “O Fantasma da Ópera” e “O Corcunda de Notre Dame”, pelos quais acabou ganhando a alcunha de “o homem das mil faces”. Apesar de tantas performances memoráveis, Chaney nunca foi agraciado com um Oscar e elas ficaram limitadas à pesada maquiagem que usava e davam a elas um aspecto muito caricatural e exagerado aos olhos do público moderno.
A disputa de melhor ator do cinema mudo permanece entre Chaplin e Keaton. Quem foi maior: Elvis ou os Beatles? Eis a questão.

No auge de sua carreira, Chaplin fez filmes extremamente populares, mas sua reputação se baseia em um único personagem, que compõe um corpo de trabalho dos mais extensos do cinema. Desde o começo, atuando em filmes de tiro curto para o já esquecido Mack Sennett, Chaplin manteve a essência do personagem que iria eternizá-lo, o Vagabundo, mas aprendeu a trabalhar o personagem com mais meticulosidade nos filmes que produziu e dirigiu posteriormente. Nesse período, fez poucos filmes, dos quais os maiores destaques são “Dia de Pagamento” (Pay Day) e “Os Ociosos” (The Idle Class), enquanto Keaton foi bem mais prolífico e no mesmo período entre 1920 e 1929, ele trabalhou em uma série de filmes que poderiam tê-lo transformado no maior ator-diretor do cinema. O público, porém, não adotou Keaton tão bem quanto adotou Chaplin, a despeito de filmes como “A General”, “O Navegador”, “Sherlock Jr.” e “Nossa Hospitalidade”.

Chaplin e Keaton dirigiram e estrelaram os filmes que eles mesmos produziram, e ambos eram igualmente hilários. Logo, ambos formariam suas próprias companhias. Chaplin a United Artist, e Keaton a Keaton Productions. Mas se por um lado Keaton realizou “A General”, o melhor filme do cinema mudo de todos os tempos – e isso é uma questão indiscutível para qualquer um que estude cinema clássico – algo em sua carreira não a fez decolar na década seguinte. Os filmes de Keaton eram diferentes dos filmes de Chaplin. Keaton era sempre o dândi envolto em perseguições e percalços atrás de seus desejos e objetivos, um modelo de narrativa que encontra mais adeptos no público moderno. “A General” é um bom exemplo de seu talento: sem esboçar um único sorriso, Keaton atravessa a narrativa em cenas de tirar o fôlego dos espectadores com uma enxurrada de reviravoltas e quiprocós que fazem do filme uma comédia irresistível com as melhores cenas de ação jamais filmadas até então. Os filmes de Keaton não têm nenhum vestígio do sentimentalismo escancarado dos filmes de Chaplin. Se havia interesse romântico, ele ficava sempre em segundo plano, para não atravancar as heróicas peripécias de Keaton em cena. Por sua vez, os personagens de Chaplin eram movidos por um ideal romântico ou sentimental, e nem por isso ele era menos heróico do que Keaton, realizando também algumas proezas em cena: a perseguição pelos telhados em “O Garoto”, o pastelão surreal envolvendo uma cabana à beira de um abismo em “Em Busca do Ouro” e o seu acrobático e atlético desempenho em “O Circo”, tudo recheado de grande emoção e sentimentalismo, sem nunca deixar de ser engraçado. A reunião do Vagabundo com o órfão ao fim da cena de perseguição de “O Garoto” continua sendo uma das cenas mais tocantes da história do cinema.

Chaplin pôde ter ficado marcado como o ator de um personagem só, e os filmes que estrelou livrando-se dos trapos não lhe trouxeram lucros, mas aquele personagem que vivia na miséria e era oprimido pela máquina social, representava a própria condição humana de milhões de pessoas que viveram a Grande Depressão. A outra chave para a popularidade de Carlitos era que ele não precisava de “intertítulos” para se fazer engraçado, ele o era da forma mais visual possível, através de gags. Mesmo quando saboreia a própria bota durante o jantar de Ação de Graças ou realiza a dança com os pães, Chaplin consegue extrair humor e certa esperança de uma situação das mais miseráveis. Antes mesmo de aprenderem a ler e a escrever, as crianças se identificam e compreendem o discurso chapliniano. Para elas, as palavras só iriam confundi-las.

Enquanto a carreira de Keaton desandou nos anos 30, a de Chaplin se manteve em alta, com duas obras primas silenciosas em pleno período sonoro, “Luzes da Cidade” e “Tempos Modernos”. Chaplin recebeu um Oscar especial em 1929 por “O Circo” e outro em 1972, pelo resumo da obra, além de um Oscar pela Música de “Luzes da Ribalta”.

Para chegar à conclusão de quem foi melhor, se Chaplin ou Keaton, eu recorro à idéia de que Keaton me faz rir demasiadamente toda vez que eu vejo um de seus filmes, mas apenas Chaplin consegue me fazer rir e chorar quase ao mesmo tempo.

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