Grandes Clássicos: O Garoto (1921)

O GAROTO
Título Original: The Kid
País: Estados Unidos
Ano: 1921
Duração: 67 min.
Direção: Charles Chaplin
Produção: Charles Chaplin
Fotografia: Roland Totheroh
Edição: Charles Chaplin
Roteiro: Charles Chaplin
Direção de Arte: Charles D. Hall
Figurinos: Mother Vinot
Música: Eric James e Eric Rogers (1971)
Elenco:
Carl Miller (O Homem)
Edna Purviance (A Mulher)
Jackie Coogan (O Garoto)
Charles Chaplin (O Vagabundo)
Albert Austin (Homem)
Beulah Bains (Noiva)
John McKinnon (Policial)
Nellie Bly Baker (Enfermeira)
Henry Bergman (Dono do Albergue)
F. Blinn (Assistente)
Jack Coogan Sr. (Convidado/Diabo)
Lita Grey (Anjo)
Sinopse:
Uma mãe solteira deixa um hospital de caridade com seu filho recém-nascido. A mãe percebe que ela não pode dar para seu filho todo o cuidado que ele precisa, assim ela prende um bilhete junto a criança, pedindo que quem o achar cuide e ame o seu bebê, e o deixa no banco de trás de um luxuoso carro. Entretanto, o veículo é roubado por dois ladrões, que quando descobrem o bebê o abandonam no fundo de uma ruela. Sem saber de nada um vagabundo faz o seu passeio matinal e encontra o bebê. Inicialmente ele quer se livrar da criança, mas diversos fatores sempre o impedem e gradativamente ele passa a amá-lo. Paralelamente a mãe se arrepende e tenta reencontrar seu filho, mas quando descobre que o carro foi roubado tem um choque, pois muito provavelmente ela nunca mais verá sua criança.

Clássico absoluto do cinema. Chaplin exercita todo o talento na condução da emoção do público e entre risos e lágrimas extrai a atuação mais impressionante de uma criança até hoje nas telas – o menino Coogan, egresso do teatro vaudeville, onde foi descoberto por Chaplin e transformado na primeira grande estrela mirim do cinema. Além de seqüências comoventes (Carlitos corre por sobre os telhados das casas atrás do caminhão dos agentes do juizado que levam o menino) e soluções originais (o sonho que o diretor inclui na narrativa, recurso até então inédito e incompreendido na época), Chaplin realizou uma das obras de maior conteúdo emocional de todos os tempos. Muitos dizem que o filme foi uma espécie de catarse de Chaplin para aliviar sua dor pela perda de seu primogênito, nascido morto antes da produção começar. Envolvido em um divórcio tumultuado movido por sua esposa na época Mildred Harris, os negativos foram escondidos e contrabandeados em latas de café para um hotel em Salt Lake City onde Chaplin montou o filme enquanto negociava com a produtora First National. Em 1971, Chaplin reeditou o filme e compôs uma nova trilha sonora. Lita Grey, que interpreta um anjo na sequência do sonho, logo se tornaria a segunda sra. Charles Chaplin.

Uma comédia com um riso e uma lágrima

Charles Chaplin foi um dos grandes cineastas de todos os tempos. Além disso, foi uma das maiores personalidades do século 20. Foi também um dos maiores humanistas do cinema. Seus filmes mostravam o triunfo de um homem sobre as adversidades do mundo. Em geral, do seu alterego, Carlitos. Criador de obras cujos títulos estão entre os maiores clássicos do cinema, Chaplin sabia como ninguém provocar o riso, mas também a lágrima, com uma simples mudança de take.

Em 1920, Charles Chaplin já tinha rodado “Vida de Cachorro”, “Carlitos nas Trincheiras”, “Um Idílio nos Campos” e “Um Dia de Prazer”, além de um pequeno curta-metragem publicitário “The Bond”. Mas ainda faltavam outros quatro filmes para terminar o seu contrato com a First National, e o cineasta estava cada vez mais desanimado. Não estava vivendo um dos melhores momentos da sua vida pessoal. Tinha se casado em outubro de 1918 com Mildred Harris, uma jovem atriz de dezessete anos que pretendia que ele impulsionasse a sua carreira artística. Em meados de 1919 tiveram um filho deformado, que morreu três dias mais tarde. Logo depois, o casamento entrou em crise. Tudo isso afetou bastante a criação do seu segundo filme, para o qual buscava desesperadamente um motivo de inspiração. A idéia acabou surgindo durante uma apresentação no teatro Orpheum de Los Angeles, onde Chaplin assistiu o número interpretado por um bailarino excêntrico e seu pequeno filho. O menino se chamava Jackie Coogan e tinha apenas cinco anos.

Descobrindo Jackie Coogan

O pequeno protagonista de “O Garoto” nasceu em outubro de 1914 e, como logo se veria, já tinha sangue de artista nas veias. A sua mãe era atriz de variedades e o seu pai trabalhava na companhia de Annettte Kellerman, uma nadadora acrobata. Em 1919, durante uma turnê de Annette Kellerman, pai e filho foram descobertos por figuras fundamentais de Hollywood. O primeiro por Roscoe Arbuckle; o segundo por Chaplin. Antes, porém, Chaplin lhe deu um pequeno papel no filme “Um Dia de Prazer” para que se acostumasse com as câmeras. Mas a sua verdadeira intenção era convertê-lo na estrela de “O Garoto”. O cineasta lhe ensinou alguns truques do ofício que, em alguns casos, funcionaram. Em outros, não. Quando em uma das cenas não conseguiu chorar, o seu pai o ameaçou, dizendo que se não chorasse o levariam para um orfanato de verdade. Logo depois, o menino começou a chorar aos prantos. “Ele era capaz de dar emoção à ação, e ação à emoção. Podia repetir uma cena várias vezes sem perder a aparência de espontaneidade”, contou Chaplin na sua autobiografia.

Depois do grande sucesso desse filme, Coogan se converteu em uma estrela de Hollywood, interpretando alguns dos papéis mais importantes em clássicos do cinema infantil, como “Oliver Twist” (1922), “Tom Sawyer” (1930) e “Huckleberry Flynn” (1931). Em 1938, teve problemas para recuperar os seus quatro milhões de dólares que estavam sob custódia da sua mãe. De todo esse dinheiro, recebeu apenas uma pequena parte. Ao crescer e engordar, perdeu a graça infantil que era seu trunfo e a sua carreira se limitou a pequenos pepéis secundários. Voltou a ser famoso através da televisão, no papel do tio Fester de “A Família Addams”. Dois anos antes da sua morte, se despediu das câmeras com um papel em “Escape Artist” (1984), um filme de Caleb Deschanel, produzido por Francis Ford Coppola.

“Seis rolos de alegria”

O cineasta utilizou o talento espontâneo deste menino prodígio como ponto de partida de um filme que lhe possibilitasse romper a rotina criada pelas suas obrigações contratuais com a First National. Por isso, decidiu rodar um filme de seis rolos, que acabaria sendo o seu primeiro longa-metragem. Mas os diretores da empresa não gostaram da idéia e tentaram convencer Chaplin a dividir o filme em três curtas-metragens de dois rolos cada um. O clima estava ficando cada vez mais tenso, e o cineasta foi obrigado a chamar os principais exibidores da First National nos seus estúdios. Uma representação conjunta de Carlitos com o pequeno protagonista de “O Garoto”, filmada em um documentário incluído por Kevin Bronwnlow e David Gil na sua série para a televisão “Chaplin Desconhecido”, apaziguou os ânimos momentaneamente, deixando o cineasta se concentrar em um trabalho que unia a comédia com a tragédia, a ficção com evidentes elementos autobiográficos. O estúdio usou o fato de o filme ter “seis rolos” de duração na própria campanha publicitária da época, vendendo “O Garoto” através dos cartazes como tendo “seis rolos de alegria”.

A legenda inicial adverte de que se trata de “um filme com um sorriso e, talvez, uma lágrima”. Logo depois, aparece uma mulher com um bebê no colo – interpretada por Edna Purviance -, siando de um hospital público. A seguinte legenda diz que é “uma mulher cujo único pecado foi a maternidade”. E para que não restasse nenhuma dúvida sobre o tom melodramático deste prólogo, a mulher abandona a criança dentro de um automóvel de luxo, estacionado diante de uma rica mansão. Folhetins cinematográficos de David W. Griffith e romances de Charles Dickens, além de elementos do próprio Chaplin (a mãe dele foi abandonada pelo pai e teve uma infância miserável), inspiraram o cineasta, que surge na figura de Carlitos. Ele acha o bebê, mas decide colocá-lo no carrinho de outro bebê, mas a mãe deste o devolve. Vigiado por um policial, decide ficar com ele. No fundo, o coração de Carlitos jamais poderia desprezar um bebê abandonado…

A mãe arrepende-se e tenta recuperar o filho, mas os ladrões que roubaram o carro e deixaram o bebê no bairro pobre onde Carlitos o encontrou, apagaram todas as pistas. Cinco anos mais tarde, o garoto aprendeu a ter medo da polícia e ajuda seu pai no trabalho: ele atira pedras nas janelas da vizinhança e corre. Carlitos passa pelo local logo depois se oferecendo para consertá-las. Através de uma montagem paralela, o filme mostra a mãe do garoto convertida em uma estrela dos palcos, mas a lembrança do filho que abandonou a faz ajudar crianças pobres. Seu filho, sem ela o saber, recebe alguns brinquedos das suas próprias mãos. Depois de uma confusão com os vizinhos, é ela quem percebe que o menino está doente. Um médico descobre que Carlitos não é o pai da criança e recomenda que o menino continue o tratamento em um orfanato.

A chegada de um caminhão da assistência social com um inspetor – interpretado por Sidney Chaplin, irmão do cineasta – deflagra o momento mais tocante do filme: pai e filho são separados e a máscara da comicidade cai por terra, e o tom alegre do filme ganha um ar de tragédia, enquanto Carlitos corre pelos telhados das casas, alcança o caminhão, enfrenta o assistente social, apanha o menino e ambos fogem juntos. O reconhecimento da mãe com a criança se dá quando ela reencontra o médico diante da casa de Carlitos e este lhe mostra o bilhete que ela mesma escreveu…

Chaplin, porém, prolonga o desenlace, fazendo com que ambos se escondam em um albergue, mas são descobertos pelo proprietário, que reconhece o menino pelo anúncio que sua mãe colocou nos jornais. Ele rapta a criança e a leva para a delegacia, onde sua mãe aparece para buscá-la. Sozinho, Carlitos volta para casa e adormece. Ele sonha com uma rua celestial, onde ele e todos os vizinhos são anjos. Um demônio – interpretado pelo pai de Jackie Coogan – tenta convencer uma jovem a abandonar seu namorado e seduzir Carlitos. Na confusão, Carlitos briga e acaba morto por um policial. Este é o mesmo policial que o acorda para levá-lo, não para a delegacia, mas para a casa da mãe do menino, onde ele o reencontra em um final feliz.

A chegada de Carlitos à casa da mãe do garoto sintetiza um happy end convencional, aberto e que satisfaz as exigências do roteiro, assim como a seqüência do reconhecimento e o conseguinte reencontro da mãe com o filho, todo filmado em plano geral, formalizando um reencontro biológico, em que a natureza triunfa simplesmente. Por outro lado, a cena em que Carlitos recupera o garoto no caminhão está filmada em um intenso primeiro plano, valorizando a autenticidade dos sentimentos e rompendo os códigos – o melodrama alternando-se à comédia – para favorecer a emoção mais pura.

O melodrama com que “O Garoto” se inicia e que alcança o ápice durante a cena da separação, sem dúvida foram inspiradas na própria infância do cineasta, cujo pai abandonou a família quando ele era bem pequeno. Sobre a cena, o poeta espanhol Federico Garcia Lorca escreveu, em 1928: “O choro nunca foi utilizado de forma tão pura em uma estética. Carlitos transforma o choro em uma causa, fonte isolada sem qualquer relação com o tema que o produz. Choro em si mesmo”.

O escritor James Barrie, autor de “Peter Pan”, qualificou o episódio do céu como inútil. Talvez pela época, em que seqüências de sonho eram raridades, sobretudo em comédias, a inclusão desta cena dividiu a opinião dos especialistas na obra de Chaplin, que inovou em muitos aspectos, e também inovou ao incluir à estética do filme um espectro que faz com que “O Garoto” oscile entre o realismo social das primeiras cenas e o que foi chamado de “surrealismo chapliniano”. A seqüência do céu ilustra o funcionamento de um subconsciente progressivamente invadido pela realidade. A princípio, tudo é possível, até mesmo que os cachorros voem, mas a invasão diabólica que deflagra a violência representada pela autoridade policial, abre as portas da realidade, onde a figura do policial, tantas vezes vilanizada na obra de Chaplin, ressurge como restauradora de uma ordem natural.

Ao acabar de rodar o filme, que marca um ponto de inflexão na sua oabra, Chaplin livrou-se de qualquer compromisso contratual com a First National e da própria Mildred Harris, que tentava tirar o melhor proveito possível do seu divórcio através de manobras judiciais. Chaplin pegou os 500 rolos de negativo e se refugiou em um hotyel de Salt Lake City para poder realizar a montagem com toda a liberdade. “Tínhamos mais de duas mil cenas para classificar”, relembrou o cineasta em sua autobiografia, “e apesar de estarem numeradas, às vezes perdíamos algumas e tínhamos que passar horas procurando, debaixo e em cima da cama ou no banheiro, até encontrá-la”. Depois de montar o filme, o resultado final foi projetado em Nova York para 25 exibidores da First National, para os quais pediu um milhão e meio de dólares como direitos de exibição. Depois do acerto, os sócios dividiram os lucros obtidos e, cinco anos mais tarde, Chaplin recuperou a propriedade do filme.

Todos saíram lucrando, inclusive Mildred Harris, que recebeu cem mil dólares pelo divórcio. “O Garoto” estreou nos Estados Unidos no dia 6 de fevereiro de 1921 e o seu sucesso imediato produziu um lucro bruto avaliado em dois milhões e meio de dólares, em valores da época.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0012349/

Filme Completo:

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