Ciclo o Expressionismo Alemão: Nosferatu (1922)

NOSFERATU, UMA SINFONIA DO HORROR
Título Original: Nosferatu – Eine Symphonie des Grauens
País: Alemanha
Ano: 1922
Duração: 82 min.
Direção: F. W. Murnau
Roteiro: Henrik Galeen, baseado no romance “Dracula”, de Bram Stoker (não-creditado)
Produção: Enrico Dieckmann; Albin Grau
Música: Hans Erdmann
Fotografia: Fritz Arno Wagner e Gunther Krampf
Direção de Arte: Albin Grau
Figurino: Albin Grau
Elenco: Max Schreck, Alexander Granach, Greta Schroder-Matray, Gustav von Waggenheim, G. H. Schnell, Ruth Landshoff.
Sinopse:
Hutter (Gustav von Wangenheim), agente imobiliário, viaja até os Montes Cárpatos para vender um castelo no Mar Báltico cujo proprietário é o excêntrico conde Graf Orlock (Max Schreck), que na verdade é um milenar vampiro que, buscando poder, se muda para Bremen, Alemanha, espalhando o terror na região. Curiosamente quem pode reverter esta situação é Ellen (Greta Schröder), a esposa de Hutter, pois Orlock está atraído por ela.

O roteiro de Henrik Galeen é uma adaptação não autorizada do livro “Drácula”, de Bram Stoker (a viúva do escritor tentou em vão proibir sua exibição na Inglaterra), que serviria de base para a segunda versão deste filme dirigida por Werner Herzog em 1979 e para o “Drácula”, de Francis Ford Coppola. Grandes momentos: a chegada ao porto de Bremen, o povo carregando caixões e o antológico encontro entre o conde (Max Shreck, extraordinariamente sinistro) e Ellen (Greta Schroeder). Um dos mais importantes exemplares do expressionismo alemão dos anos 20, mantém o impacto de sua narrativa graças ao belíssimo trabalho de fotografia (iniciado por Gunther Krampf e concluído pelo lendário Fritz Arno Wagner) e da criação dos cenários (a produção, os figurinos e a direção de arte são de Albin Grau) que impõe um visual gótico sombrio e impressionante. A caracterização de Max Schreck é uma das mais sinistras composições do cinema em todos os tempos. O roteiro de Henrik Galeen se mantém fiel ao original de Stoker, mudando nomes e lugares, enquanto Murnau constrói sua atmosfera pesada, em climas bem construídos e momentos antológicos. A história das filmagens de “Nosferatu” serviu de roteiro para “À Sombra do Vampiro”, de 2001, com Willem Dafoe como Schreck e John Malkovich como Murnau.

Uma sinfonia do horror

“Nosferatu é uma palavra moderna derivada da palavra em eslavo antigo Nosufur-atu, extraída do grego Nosophoros, Portador de Pragas.”
J. Gordon Melton

Quando o escritor irlandês Bram Stoker publicou no ano de 1897 seu livro “Drácula”, talvez não pudesse imaginar a repercussão que sua obra iria sofrer no futuro com a invenção do cinema. Foram feitas inúmeras versões sobre o vampiro mais cruel de todos os tempos e dentre estes, “Nosferatu” parece ser o primeiro (1922), destacando-se dos outros por arrepiantes cenas rodadas em branco e preto, dando à obra um caráter de profunda fantasmagoria e pesadelo, onde o vampiro Conde Orlok surge da escuridão em um visual agressivo e bizarro como estereótipo do ser anti-social, com seu semblante sinistro que lembra uma medonha figura que traz a própria morte encarnada em si mesmo. Pestilento e doentio, Nosferatu tem os dentes em forma de duas pontas juntas como a de um rato roedor, usa um casaco preto como um gótico moderno de vida noturna, além de unhas pontiagudas e cabeça careca. Magro e alto, esta figura horrível traz o horror encarnado assustando até o mais cético mortal.

O filme invoca em suas imagens trêmulas, as exóticas paisagens da Alemanha que muito aproximam-se em beleza das regiões desconhecidas da Romênia, a antiga Transilvânia onde viveu na Idade Média o Drácula histórico Vlad Tepes Dracul.
Neste pitoresco cenário, o diretor F. W. Murnau encontrou todos os ingredientes básicos que invocam o vampirismo, montanhas, florestas densas, riachos, pontes, capelas, castelos em ruínas, aldeões, ciganos, lobos, carruagens e, é claro, o talento de Max Schreck, que faz o papel do vampiro Nosferatu. E desta forma, a primeira versão para o cinema da obra de Bram Stoker revive todas aquelas imagens do horror de “Drácula” contidas nas páginas do livro.

“Nosferatu” é uma obra do expressionismo alemão e assim o caráter do horror dá-se num clima de sonhos maus e pesadelos, culminando numa peste malígna que arrasta todos para uma grande mortandade, e tudo envolto numa atmosfera gótica e nevoenta, onde é o inconsciente quem vai ser despertado para uma realidade mais subjetiva que objetiva. O enredo do filme é simples, baseado no livro “Drácula”, com algumas modificações de nomes e locais apenas, e isso devido talvez por não terem pagos os direitos autorais à viúva de Bram Stoker, que teria entrado com um recurso na justiça pedindo a destruição dos negativos. Para a sorte do Cinema, algumas cópias do filme sobreviveram a esta polêmica e hoje podemos mergulhar em suas imagens e captar o verdadeiro horror que “Nosferatu” causou nos espectadores há quase 90 anos atrás.

Nosferatu penetra na civilização do Homem como uma maldição, vindo de longe, navegando em uma escuna, um velho barco onde os tripulantes são todos mortos. Milhares de ratos acompanham o vampiro, fazendo uma alusão também à maior mancha de horror ocorrida na Idade Média na Europa: a peste negra. No decorrer do filme, o amor, mola-mestra da humanidade, entra em cena e o vampiro é atingido não com uma estaca no coração, mas com a imagem ideal de uma mulher jovem e bela, aquela que ele havia visto o retrato no camafeu do corretor de imóveis que ele fez prisioneiro em seu castelo.

Esta imagem ideal, fruto de uma visão de poeta, é para o vampiro um martírio que irá atormentá-lo, e ele se deixa aprisionar por seus desejos. Sabendo que só uma mulher de alma pura, conseguiria fazê-lo do nascer do sol, a bela mulher convence-o a ficar com ela durante toda a noite e deliciar-se de seu sangue. Assim, o dia vai clareando, despontam os primeiros raios do sol, o galo canta e Nosferatu, embriagado com o sabor do sangue doce da bela jovem e impregnado de uma luxúria sexual, esquece que tem que voltar para o sepulcro…

Então, logo ele é destruído pela luz do sol convertendo-se em um monte de poeira. Enganado e seduzido por uma “mulher ideal”, encontrou seu aniquilamento. Assim a peste também acaba e os habitantes libertam-se do mal. Vale a pena ver “Nosferatu” e rever o clássico expressionista do cinema de horror, e desta forma mergulhar acordado em um dos mais medonhos pesadelos que a mente humana já concebeu.

O início da mitologia vampírica no cinema

A década de vinte na Alemanha foi marcante pelo surgimento do movimento artístico cinematográfico denominado Expressionismo. Este movimento nos presenteou com verdadeiras relíquias cinematográficas, que expressavam, além de outros fatores, a depressão e o pessimismo, visto que a Alemanha estava política e economicamente arrasada devido a sua derrota na Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918).

E é neste ambiente que surge “Nosferatu – Eine Symphonie des Grauens” (“Nosferatu, Uma Sinfonia do Horror”, 1922), o maior clássico de horror de todos os tempos; uma verdadeira sinfonia de pesadelos ao luar.

Foi trabalho de um alemão introduzir o vampirismo como fonte de inspiração ao cinema. Já tinham acontecido algumas tentativas de usar o vampirismo como fonte de inspiração, porém o primeiro filme importante foi este, que sem dúvida nenhuma é a obra prima de Murnau. Friederich Wilhelm Murnau foi o responsável por esta gigantesca criação, inspirada na novela “Drácula” do escritor irlandês Bram Stoker, escrita em 1897. Porém, algumas alterações foram feitas para contornar problemas de direitos autorais. O nome do conde passa a ser Orlok e a ação é deslocada no espaço e no tempo: de Londres (Inglaterra) de 1897 para Bremen (Alemanha) em 1838. Por não pagar os direitos autorais da história, Murnau perdeu a causa para a esposa de Stoker, e dessa forma foi proibida a divulgação do filme. Esse processo resultou na apreensão e destruição da maioria das cópias.

Já no início do filme, Huttler (correspondente a Jonathan da novela de Stoker), um corretor de imóveis, vai ao castelo de Nosferatu e este faz um longo monólogo a respeito da angustiante impossibilidade da morte, antes de mordê-lo. O filme traz alguns traços característicos da obra de Murnau como a eterna luta do homem com as forças do mal, o pavoroso medo da humanidade com a solidão, o papel da mulher como vítima expiatória, etc. Embora pertença a tradição de terror do cinema expressionista alemão, a obra procura desvincular-se do condicionamento pictórico e teatral da escola, na medida em que incorpora cenários naturais. Por isso, ao contrário da maior parte dos filmes expressionistas alemães da época, como por exemplo, “O Gabinete do Dr. Caligari”, de Robert Wiene, em “Nosferatu” as paisagens foram filmadas ao ar livre, desprezando os ambientes artificiais. A justaposição de certos elementos (a carroça do vampiro, por exemplo) com grandes espaços naturais sugere um mistério mais genuíno do que o pintado pelos grandes cenários dos expressionistas. Realizando o filme com o mínimo de recursos financeiros, Murnau conseguiu extrair do ambiente natural a noção perfeita do sobrenatural. O filme acabou se tornando um modelo para a posterior utilização de técnicas para a criação de ambientes insólitos. No filme desfilam pássaros sinistros, casas sombrias, grandes espaços vazios, atmosfera pesada, árvores fantasmagóricas que formam labirintos macabros.

A maior parte do filme foi rodada em externas na região dos altos Tatra, na antiga Tchecoslováquia, e no mar Báltico, para obter, desde as primeiras imagens, o clima denso descrito pelo roteirista Bela Bálaz como “um arrepiante sopro do Juízo Final”. E graças às técnicas perfeitas do cameraman Fritz Arno Wagner, Murnau conseguiu as posições e enquadramentos que tinha como objetivo, com o uso de alguns truques básicos como a carruagem que atravessa a floresta dos Cárpatos, num cenário envolto em névoa (que seria muito utilizado posteriormente como uma característica do vampirismo), com tomadas de cavalos assustados, lobos e aldeões inquietos como num pesadelo…

Filmagens quadro-a-quadro também são utilizadas no filme, como aquela cena em que a carruagem do vampiro atravessa uma estreita e vazia estrada cercada por ciprestes negros. No plano estético, podemos observar o uso do jogo de luz e sombras dos cenários, e a força das expressões faciais davam o tom carregado e depressivo, imortalizando cenas perfeitamente góticas. Como a maior parte dos filmes expressionistas, os olhos dos atores eram vivamente pintados, numa forma que nos causa arrepios.

O conde Orlok (Nosferatu), interpretado pelo magnífico ator Max Schreck, se tornou o vampiro mais poderoso da história do cinema, pois o ator ao interpretar o vampiro idealizado por Stoker, formou uma das mais poderosas caracterizações do personagem. Max Schreck caiu como uma luva no papel, que ao contrário dos futuros vampiros das telas, não tinha nada de sedutor: era um zumbi esquelético, corcunda e careca, com orelhas pontiagudas, dentes incisivos (e não caninos), cara de rato, dedos longos e ossudos. Um monstro absolutamente repulsivo e angustiado, condenado a viver do sangue alheio, sem nunca conhecer a morte nem o amor. Isto sem falar do branco marmóreo de sua pele contrastando com sua capa preta e comprida, tornando-o um fantasma completamente mórbido.

Este visual um tanto carregado são fatores que nos fazem parar e pensar a respeito do angustiante fantasma da solidão. E é justamente a solidão o ponto referencial do filme, é nesta solidão que se baseia “Drácula”, e é ainda mais forte em “Nosferatu”. Com movimentos duros e expressivos, “Nosferatu” mais parece uma interpretação teatral, numa forma de atuar que colocaria os Dráculas posteriores no bolso. Algumas lendas rodeiam o filme (como não poderia deixar de ser) como a hipótese de, em poucas cenas, não ser Max Schreck quem interpreta o conde Orlok, mas sim um grande amigo de Murnau, o roteirista Hans Ramo. Um motivo a mais para se prestar melhor atenção às cenas.

O filme apresenta cenas altamente depressivas, como o castelo vazio, procissões, pessoas enlouquecidas pelo surto de peste que Nosferatu havia trazido consigo. Ellen (correspondente a Mina, da novela de Stoker) pressente a chegada do navio de Nosferatu, enquanto observa o mar em um cemitério. Aliás, a cena mais antológica do filme, é quando chega a Bremen a bordo de seu navio macabro, trazendo consigo centenas de ratos e, como não poderia deixar de ser, a tripulação completamente morta.

Ele leva seu próprio caixão até sua nova residência, onde, como um garoto tímido, apenas fica rodeando a casa de Ellen, até conseguir a oportunidade certa para atacar. Porém, se o conde Drácula domina as mulheres, Nosferatu é dominado por elas. Tanto é que sua destruição é causada pelo amor de uma mulher que havia causado sua ressurreição ao amor. Ela se entrega a ele, mas não para seduzi-lo, e sim para destruí-lo, pois ela sabia que esta seria a única forma. Ele, completamente envolvido por ela, suga tranquilamente seu sangue (simbolicamente, uma relação sexual) e não percebe a chegada do sol, mas um galo o avisa. É tarde, Nosferatu é completamente desintegrado pelos raios mortíferos de seu principal inimigo em frente a janela, numa das cenas mais emocionantes do cinema.

Em 1979 foi filmada uma outra versão chamada “Nosferatu, The Vampyre” (Alemanha / França), com direção, produção e roteiro de Werner Herzog, e estrelado por Klaus Kinski como o vampiro, e Isabelle Adjani como a sua vítima.

Para ler a parte 2 clique aqui.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0013442/

Filme completo:

Galeria de imagens:

3 Respostas

  1. Alguém sabe dizer se saiu alguma edição especial de Nosferatu? E se existe o que tem nessa edição especial?

    1. Prezada Elizângela, a maioria desses clássicos do cinema mudo podem ser encontrados em edições restauradas em DVDs da Kino Video. Mais detalhes: http://www.kinolorber.com/video.php?id=213 ou encomendados direto no site da Amazon: http://www.amazon.com/Nosferatu-Max-Schreck/dp/B000055ZB8

  2. Obrigada amigo, vou ver agora!
    Abçs

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