Grandes Clássicos: Cidadão Kane (1941)

CIDADÃO KANE
Título Original: Citizen Kane
País: Estados Unidos
Ano: 1941
Duração: 119 min.
Direção: Orson Welles
Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles
Produção: Orson Welles
Música: Bernard Herrmann
Direção de Fotografia: Gregg Toland
Direção de Arte: Perry Ferguson e Van Nest Polglase
Figurino: Edward Stevenson
Edição: Robert Wise
Elenco:
Orson Welles (Charles Foster Kane)
Joseph Cotten (Jedediah Leland)
Dorothy Comingore (Susan Alexander)
Agnes Moorehead (Srta. Mary Kane)
Ruth Warrick (Emily Norton Kane)
Ray Collins (James “Jim” W. Gettys)
Erskine Sanford (Herbert Carter)
Everett Sloane (Bernstein)
William Alland (Jerry Thompson)
Paul Stewart (Raymond)
George Coulouris (Walter Parks Thatcher)
Fortunio Bonanova (Matiste)
Georgia Backus (Bertha)
Sinopse:
A ascensão de Charles Foster Kane, um mito da imprensa americana, de garoto pobre no interior a magnata de um império dos meios de comunicação. Inspirado na vida do milionário William Randolph Hearst.

Clássico inspirado na vida do empresári0 William Randolph Hearst, que chegou a processar Welles. Visão intrigante do poder de manipulação da opinião pública e da ambiguidade de caráter do ser humano, considerada uma das mais importantes da história do cinema. Vencedor do Oscar de roteiro original.

O melhor filme de todos os tempos


A palavra “rosebud” surge dos lábios de um homem que morre, sozinho, em sua grande mansão rodeada de imensos jardins e parques. Um noticiário cinematográfico mostra a biografia deste personagem, um poderoso magnata da imprensa norte-americana chamado Charles Foster Kane, e um jornalista recebe a missão de descobrir o significado da enigmática palavra. Para isto, entrevista um velho amigo, seu tutor econômico e sua segunda mulher, os quais reconstroem fragmentariamente algumas passagens cruciais de sua biografia. Separado dos pais durante a infância, foi educado em Chicago sob a tutela de um mentor que geriu uma fortuna multiplicada a partir da herança de uma mina. Já adulto, Kane adquiriu um pequeno jornal da cidade que, com os resultados de uma linha editorial sensacionalista, assentaria o alicerce de um verdadeiro império jornalístico. As ambições do magnata chegam ao seu ápice com o seu casamento com a filha de um senador que chegará à presidência dos Estados Unidos, porém  a sua própria carreira política como aspirante a governador se frustra ao fazer-se pública a sua aventura sentimental com uma cantora de cabaré. Kane tenta transformá-la numa grande cantora de ópera, mas a estréia dela é um fracasso e a crise sentimental estende-se à ruptura da relação com os seus melhores amigos. Isolado na sua mansão e abandonado por todos, o magnata falece com a palavra “rosebud” nos lábios. Enquanto os empregados arrumam seus objetos pessoais, a câmera mostra a origem deste mistério, que passa despercebido ao jornalista, mas confere aos olhos do público toda a nostalgia de uma infância perdida que guiou a biografia do protagonista.

O Mercury Theatre, o Rádio e o Início em Hollywood

Um manifesto publicado no New York Postado dia 29 de agosto de 1937 proclamava o nascimento do Mercury Theatre com a vontade de “produzir obras antigas que pareçam ter uma conexão emocional ou de fato com a vida moderna”. Porém, além da criação desta companhia teatral, o que realmente propôs Orson Welles foi uma marca de fábrica que, por sua vez, era uma definição de princípios sobre a sua concepção do espetáculo.

Sob a presidência de John Houseman e a vice-presidência de Welles, a companhia estava formada por um elenco de atores integrado por Joseph Cotten, George Coulouris, Agnes Moorehead, Everett Sloane, Paul Stewart, Erskine Sanford, Ray Collins e Gerald Fitzgerald. Os seus nomes associam-se a algumas das produções teatrais do Mercury – Julius Caesar, Too Much Johnson ou Danton’s Death – e aos programas de rádio que foram emitidos paralelamente sob o genérico de First Person Singular ou Mercury Theatre on the Air. Após o sucesso de “A Guerra dos Mundos” todos eles viajaram a Hollywood para reunirem-se com o cineasta no estúdio de gravação de “Cidadão Kane”, muitos deles repetiram a experiência em “Soberba” (The Magnificient Ambersons), e alguns fiéis, como Cotten, expandiram a sua relação profissional com Welles a uma amizade para toda a vida. Outros ficaram independentes do realizador, no caso de Agnes Moorehead, que adaptou a rigidez do seu físico imperturbável a melodramas como “O Prisioneiro do Passado” (Dark Passage), Desdeque Partiste (Since Your Went Away), entre outros, e Everett Sloane interveio em “A Dama de Shangai” e seguiu Welles no início do périplo de “Othello” para depois reaparecer em “A Grande Chantagem” (The Big Knife) e “Sede de Viver” (Lust for Life). Os demais se dispersaram entre papéis secundários para cinema e televisão, sem grande repercussão.

Paralelamente a suas atividades teatrais e radiofônicas, Orson Welles recebeu diversas ofertas cinematográficas. A Warner propôs-lhe um papel em “As Aventuras de Robin Hood” e a Metro ofereceu-lhe o de co-protagonista de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Continuaram oferecendo-lhe papéis – o de Charles Laughton em “O Corcunda de Notre Dame” ou o de Spencer Tracy em “O Médico e o Monstro” – porém, o salto definitivo de Welles para Hollywood só veio após uma oferta tentadora de George J. Schaefer, presidente da RKO. O estúdio pretendia potencializar uma série de títulos de prestígio e ninguém melhor do que Welles, principalmente após a repercussão obtida com as montagens teatrais e a popularidade atingida com a sua emissão na rádio de “A Guerra dos Mundos”, para encabeçar essa política.

No dia 21 de agosto de 1939, foi assinado um contrato que entraria para a história pela liberdade absoluta que um estúdio de Hollywood conferia à criatividade de um realizador sem experiência – inclusive decisão sobre a montagem de seus filmes. Enquanto a comunidade cinematográfica reagia hostilmente contra aquele insolente intruso de 24 anos, Welles viu-se obrigado a decidir como canalizaria os meios que Hollywood tinha colocado à sua disposição. Porém, enquanto o estúdio esperava dele uma história fantástica como a dos marcianos invadindo a Terra como na adaptação radiofônica de “A Guerra dos Mundos”, Welles preferiu uma versão de “Cyrano de Bergerac”. Em outubro, o acordo foi encerrado sobre “Heart of Darkness” a partir de uma adaptação livre do romance de Joseph Conrad que, mais tarde, serviria de suporte para “Apocalipse” (Apocalipse Now) de Francis Ford Coppola. Porém, o aumento progressivo do orçamento e as repercussões da Segunda Guerra Mundial na Europa estacionaram este ambicioso projeto. Utilizando uma cláusula que lhe permitia dar a sua aprovação definitiva sobre as propostas de Welles, a RKO também desperdiçou sua adaptação do romance policial “The Smiler With a Knife”, de C. Day Lewis, por não considerá-lo à altura das expectativas despertadas.

Nasce Charles Foster Kane

Enquanto os prazos previstos no contrato para a RKO tinham sido superados, Welles soube refazer seus contratos radiofônicos que semanalmente obrigavam-no a viajar a Nova York para cumprir seus compromissos, levando-o a uma atividade criadora frenética quase auto-destrutiva. Foi então que ele não teve outro remédio e pediu socorro ao roteirista Herman Mankiewicz – com quem já tinha trabalhado em programas de rádio – para que o tirasse do sufoco e ambos chegaram ao acordo de desenvolver uma estória inspirada no magnata da imprensa William Randolph Hearst. Desde fevereiro de 1940 trocaram informações, corrigiram mutuamente suas contribuições e, depois de uma primeira versão entitulada “American”, cinco meses mais tarde estava pronto o roteiro definitivo cujas primeiras imagens se deram no final de junho, com um orçamento de 735.000 dólares.

Welles possuía escassa bagagem cinematográfica para enfrentar o desafio de dirigir o filme, mas utilizou “O Delator” e “No Tempo das Diligências”, dois filmes de John Ford que viu muitas vezes como um manual de cabeceira. Soube também cercar-se de excelentes colaboradores técnicos: o decorador Perry Ferguson, o maquiador Maurice Seiderman, o compositor Bernard Herrmann – futuro autor das melhores partituras de Alfred Hitchcock – o diretor de fotografia Gregg Toland, artífice da iluminação de “As Vinhas da Ira”, e o montador Robert Wise, que mais tarde se tornaria cineasta. Durante a filmagem, Welles submetia-se a complexas sessões de maquiagem para tornar convincentes as mudanças cronológicas vividas pelo protagonista de sua juventude até a velhice. A fratura de um tornozelo ou um corte na mão durante a cena em que Kane fica enfurecido e destrói um quarto não impediram que ele continuasse trabalhando, ganhando em Toland o colaborador perfeito que aceitou como um desafio profissional as posições inovadoras de câmera ou os efeitos de iluminação que Welles, de acordo com a sua formação teatral, solicitava a ele. Apesar de nem todos os elementos técnicos e narrativos que integram “Cidadão Kane” sejam estritamente originais, a sua procedência e, principalmente, a sua espetacular acumulação de tantas coisas transformaram o filme num autêntico catálogo de inovações, sobretudo na aplicação de seis flashbacks para reconstruir a biografia de um só personagem. Um resultado sumamente efetivo.

Welles não duvidou em copiar o estilo dos noticiários March of Time para descrever a biografia do protagonista, e aproveitou as possibilidades dramáticas da voz que tinha aprendido na frente dos microfones e o talento de Toland para traduzir em linguagem cinematográfica os recursos cênicos adquiridos no teatro. A utilização de tetos iluminados por transparência, focos com arco duplo para a iluminação das cenas interiores ou fontes de luz cenitais conferiram uma nova dimensão ao foco, que o realizador soube multiplicar com a técnica da profundidade de campo ou a colocação da câmera em lugares inusitados, oferecendo ângulos insólitos. O seu barroquismo também o impulsionou a utilizar espelhos, bem como grandes angulares distorcidos, mediante a interpolação de uma bola de cristal que anuncia a morte do protagonista ou um copo usado para a ingestão de soníferos. A sentença de Welles de que os filmes se criam na moviola fez-se cumprir em “Cidadão Kane”, não só pela sua estrutura narrativa, mas também pela articulação de diversos planos ou por uma elipse que separa a infância de Kane e o mostra já adulto.

A batalha em torno do Cidadão Kane

Em janeiro de 1941 realizou-se uma primeira projeção privada da cópia definitiva, porém entre os seus espectadores estava a colunista Louella Parsons e esta, contratada por um dos jornais de Hearst, deu a este um sobreaviso sobre as semelhanças maliciosas que, segundo ela, mantinham o protagonista do filme, Charles Foster Kane, com o próprio William Randolph Hearst. Welles concordara em caricaturizar o grande magnata da imprensa norte-americana porque tinha sido amigo do pai dele e porque ele próprio tinha estado em alguma recepção na suntuosa mansão de San Siméon. As coincidências não acabaram aí, já que Charles Lederer, sobrinho da amante de Hearst, Marion Davies, acabaria se casando com Virginia Nicholson, a primeira esposa de Welles. Além disso, alertado a respeito, o próprio Hearst tentou eliminar o filme antes de sua estréia, através de Louis B. Mayer, que ofereceu mais de 800 mil dólares à RKO para que esta destruísse os negativos e, como isso falhasse, conseguiu fazer ao menos, através de seus meios de comunicação e com o respaldo do poderoso Herry Luce, editor de Time Life, impiedoso boicote ao filme. Porém, o produtor George C. Schaefer apoiou em todos os momentos o cineasta apesar das semelhanças entre ficção e realidade: Kane e Hearst tinham nascido em 1863, tinham feito fortuna a partir de uma herança, e não era difícil identificar a amante de Kane com uma combinação entre a atriz Marion Davies e a cantora Sybil Sanderson, primeiro amor de Hearst. Além disso, a mansão de Hearst em San Siméon tinha réplica em Xanadu, a mansão de Kane, e a trajetória jornalística e política de ambos eram semelhantes em muitos pontos.

“Cidadão Kane” estreou no dia 1º de maio no RKO Palace da Broadway, com a presença de Welles acompanhado pela atriz Dolores Del Rio – sua companheira após o divórcio com Virginia Nicholson – e recebeu críticas sumamente elogiosas, assim como a Consideração Nacional de Críticos como o melhor filme do ano. No entanto, os resultados obtidos na cerimônia do Oscar – apenas a estatueta de Melhor Roteiro, que Welles dividiu com Mankiewicz, diante de nove indicações – foram justificados pela inveja que o cineasta tinha despertado entre os Membros da Academia e as repercussões do boicote provocado pelas influências de Hearst sobre a bilheteria – cento e cinqüenta mil dólares de perdas quando deixou de ser distribuído em 1942 – atrapalharam esta brilhante decolagem inicial.

O filme, antecipando-se claramente à sua época, foi ganhando adeptos ao longo do tempo. Um artigo publicado em 1971 por Pauline Kael, como prólogo à edição do roteiro, reabriu velhas feridas pois, segundo a jornalista, fora Mankiewicz e não Welles, o verdadeiro artífice do roteiro de “Cidadão Kane”, graças ao conhecimento da vida privada do magnata Hearst com sua amante Marion Davies, adquirido por ele ao longo das numerosas festas que Hearst oferecia na sua mansão de San Siméon. O debate, já falecido Mankiewicz, travou-se entre colaboradores ressentidos, o compositor Virgil Thomson e o produtor John Houseman, contra aqueles que apoiavam Welles, o crítico Peter Bogdanovich, o compositor Bernard Herrmann e o ator George Coulouris. Em carta ao Times, Welles defendeu-se, assinalando que o roteiro tinha sido resultado de uma estreita colaboração com Mankiewicz. Pesquisas recentes sobre a polêmica, corroboram a colaboração entre ambos em proporções equivalentes, embora Welles sempre reconheceu que a utilização dramática da palavra “rosebud” – “botão de rosa”, eufemismo com o qual, carinhosamente, Hearst se referia ao sexo de sua amante – como uma idéia de Mankiewicz. De qualquer forma, Welles aprendeu a lição e nunca mais voltou a dividir a ficha técnica dos seus filmes com colaboradores que, de um modo ou de outro, pudessem fazer sombra à sua gigantesca silhueta criativa.

O Melhor Filme de Todos os Tempos

Transformar o cinema em uma competição que permita elucidar definitivamente qual é o melhor filme de todos os tempos não é uma tarefa fácil. Pelo contrário, é tão complicado e polêmico quanto apontar qual é o melhor romance literário de todos os tempos ou a melhor composição musical. No entanto, de acordo com a votação convocada toda década entre dezenas de críticos de cinema do mundo todo pela prestigiada revista britânica Sight & Sound existe um dado significativo sobre suas preferências. Quando este referendo aconteceu pela primeira vez em 1952, o filme mais votado foi “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio de Sica. Atrás dele vinham obras-primas inquestionáveis de Chaplin, Eisenstein, D.W. Griffith ou Renoir, mas Orson Welles e seu “Cidadão Kane” – que só estreou na Europa após a Segunda Guerra Mundial – já aparecia entre os dez primeiros classificados. Uma década mais tarde, em 1962, “Cidadão Kane” ficou em primeiro lugar e, nas outras três votações que aconteceram até 1992, permaneceu neste privilegiado lugar. A Academia de Hollywood não soube reagir à altura da brilhante criação de Welles, oferecendo-lhe apenas o Oscar de Melhor Roteiro. Em 1970, porém, a Academia teve que redimir-se em outorgar um Oscar honorífico ao conjunto da obra de Orson Welles na tentativa de reparar um erro histórico. O cineasta, indomável como sempre, apenas assinalou a incongruência de tais propósitos negando-se a assistir à cerimônia.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0033467/

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