A História do Cinema – Parte 9

A HISTÓRIA DO CINEMA – PARTE 9

1970 – 1979: O BLOCKBUSTER

A década de 70 foi palco de um conjunto de acontecimentos que alteraram o panorama da indústria cinematográfica norte-americana e, consequentemente, do resto do mundo. Após 25 anos de declínio econômico, os anos entre 69 e 71 revelaram-se o fundo de uma crise que alterou por completo a indústria. Exemplo dessa crise é o fato de a Metro-Goldwyn-Mayer, um dos símbolos da meca do cinema, ter se visto obrigada, em 1970, a leiloar o guarda-roupa e adereços das suas mais famosas produções.

Muito embora os novos gêneros cinematográficos ganhassem destaque, Hollywood demonstrava, no início desta década, uma incapacidade de atrair o público mais jovem às salas de cinema e isso revelavasse no decrescente número de espectadores. A salvação da indústria esteve numa nova geração de realizadores, que cresceram vendo os filmes de Hollywood e reinventaram alguns gêneros cinematográficos, precisamente numa época de transformação social. Realizadores como Martin Scorsese, George Lucas, Brian de Palma, Francis Ford Coppola e Steven Spielberg foram alguns dos nomes que reinventaram Hollywood e que, devido ao fato dos estúdios não encontrarem outras soluções, tinham liberdade (e dinheiro) para realizarem o que desejavam. Como resultado, na década de 70, foram produzidos filmes como “O Poderoso Chefão” (I e II), “O Exorcista”, “Operação França”, “Tubarão” e “Guerra nas Estrelas”. Todos eles grandes sucessos de bilheteira, em particular os dois últimos, que marcam o ponto de virada da indústria e criaram um “monstro” chamado blockbuster. Virado para um público jovem, repleto de ação e efeitos especiais, este tipo de filme transformou a economia de Hollywood e os estúdios cada vez mais dependente deles.

Antes do blockbuster se “solidificar” na década seguinte, os realizadores que os criaram tiveram a oportunidade de inovar, produzindo filmes como “Nashville”, “Taxi Driver”, “Laranja Mecânica”, “O Franco Atirador”, entre muitos outros. Para além destes, Hollywood teve também algum sucesso com filmes mais tradicionais, como os filmes catástrofe “Inferno na Torre”, “Aeroporto”, “Terremoto”, entre outros, e até assistiu ao regresso dos musicais com “Os Embalos de Sábado à Noite” e “Greese”.


A transformação econômica dos anos 70 não ficou apenas marcada pelo nascimento do blockbuster e Hollywood viu o seu crescimento econômico também assentar em novas fontes de receitas: os multiplexes (complexos cinematográficos com várias salas de cinema), que permitiram exibir mais filmes e de uma forma mais lucrativa, e novos canais de televisão por cabo, como o Home Box Office (HBO), que permitiram aumentar a “vida” de um filme e retirar dai mais dividendos. Para além destas novas formas de exploração cinematográfica, Hollywood descobriu também a saturação publicitária, o marketing cinematográfico, nomeadamente em televisão, que em conjunto com a exibição de um filme em larga escala, traduziu-se em grandes receitas.

Tal como em Hollywood, o restante panorama cinematográfico mundial mostrava-se, também, muito sombrio no início da década de 70 e apenas o aparecimento de novos realizadores disfarçava a crise. Na Inglaterra, a produção cinematográfica caiu vertiginosamente e apenas a utilização dos estúdios pelas produções norte-americanas conseguia manter a indústria do país à tona de água. Os anos 70 são também de crise para as cinematografias italianas e japonesas, enquanto que na Alemanha o novo cinema alemão, conhecido pela sua crítica aos valores burgueses, ganhava reconhecimento internacional, nomeadamente através dos filmes de Wim Wenders, Werner Herzog e Rainer Werner Fassbinder. Tal como na Alemanha, também na Polônia, Austrália e Brasil viram as suas cinematografias reconhecidas, através, uma vez mais, do trabalho de novos realizadores como o dos poloneses Andrzej Wajda e Krszystof Kieslowski, do brasileiros Bruno Barreto e Arnaldo Jabor, e dos australianos Bruce Beresford, Peter Weir e George Miller.

Cronologia dos principais acontecimentos ligados ao Cinema até 1979:
» 1970
– Por pressão do Departamento de Justiça, a industria cinematográfica norte-americana institui quotas para o emprego de minorias.
– Richard D. Zanuck, presidente da 20th Century Fox, é forçado a abandonar o cargo devido ao fracasso comercial dos últimos filmes do estúdio, que o colocam à beira da falência, à semelhança do que aconteceu nos outros estúdios de Hollywood.
– Stanley Jaffe torna-se, aos 30 anos, o mais novo responsável por um estúdio de Hollywood, ao assumir o cargo de presidente da Paramount Pictures.
– A Metro-Goldwyn-Mayer muda os escritórios da administração de Nova Iorque para Hollywood e leiloa os adereços e guarda-roupa dos seus filmes.
– O vice-presidente norte-americano, Spiro Agnew, ataca os filmes com música rock, acusando-os de “lavar o cérebro” da juventude, que se sente atraída pelas drogas.
– As forças armadas norte-americanas banem a exibição de “M.A.S.H.”, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, devido à sua crítica aos militares em plena campanha da Guerra do Vietnan.
– Como reflexo da crise, a indústria cinematográfica inglesa tem apenas quatro filmes em produção.
– É inaugurado, em Paris, o primeiro drive-in numa área metropolitana francesa.
– “Dodes’kaden” marca o regresso de Akira Kurosawa à realização, após uma interrupção de cinco anos.
– O filme “Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”, do realizador Elio Petri, levanta celeuma na Itália devido ao seu retrato da corrupção nas forças policiais.
» 1971
– Nos Estados Unidos, o preço médio de um bilhete de cinema é de $1.65 dólares, mas muitas salas de cinema, que não exibem estreias, têm sucesso ao cobrar apenas um dólar.
– A indústria cinematográfica de Hollywood, com o apoio do Governador da Califórnia, Ronald Reagan, recebe garantias do Governo para ajudar o setor em crise.
– A comunidade italiana nos Estados Unidos consegue pressionar o realizador Francis Ford Coppola a não utilizar a palavra Máfia no filme “O Poderoso Chefão”.
– George C. Scott renuncia a sua vitória no Oscar deste ano, ao ganhar mesmo o prêmio de melhor ator, pela sua interpretação em “Patton”.
– A televisão estatal francesa recusa-se a transmitir “Le Chagrin et la Pitié”, documentário de Marcel Ophuls sobre a colaboração francesa com os alemães durante a II Grande Guerra Mundial.
– O realizador Pier Paolo Pasolini volta a ter problemas com a censura italiana, desta vez por causa do filme “Decameron”.
– Cinco anos após a sua exibição em Cannes, o filme de Andrei Tarkovsky “Andrei Rublev” é finalmente autorizado pelas autoridades soviéticas a ser distribuído no país.
» 1972
– A inauguração do canal de televisão por cabo Home Box Office (HBO) dá inicio a uma nova fonte de receitas para a indústria cinematográfica norte-americana: canais de TV por cabo codificados e serviços de pay-per-view.
– A estação de televisão norte-americana CBS abandona a produção cinematográfica.
– O realizador Stanley Kubrick é obrigado a remontar o filme “Laranja Mecânica”, devido à recusa de muitas salas de cinema em exibirem um filme classificado para adultos e de muitos jornais recusarem a publicação do anúncio ao filme. No Brasil, o filme é exibido com manchas pretas sobre as partes íntimas dos atores.
– O filme pornográfico “Garganta Profunda” enfrenta ações judiciais em várias localidades dos Estados Unidos. Mas tal não impede que o filme se torne o maior sucesso do gênero.
– A famosa revista norte-americana Life, que durante décadas informou e ajudou a publicitar filmes e atores de Hollywood, deixa de ser publicada semanalmente.
– “O Poderoso Chefão” bate recordes de bilheteira e é alvo de controvérsia devido à violência e ao seu retrato da comunidade italiana nos Estados Unidos.
– “O Destino do Poisedon” é o primeiro de um ciclo de filmes-catástrofe, gênero muito popular durante esta década, ao qual se seguiu “Aeroporto”, “Inferno na Torre” e “Terremoto”.
– Outro gênero popular é o Blaxploitation, filmes de baixo orçamento interpretado por atores negros, que gerou astros e estrelas como Richard Roundtree e Pam Grier.
– A visita da atriz Jane Fonda a Hanoi (Vietnan) não é bem vista por muitos norte-americanos.
– Charlie Chaplin regressa aos Estados Unidos, após duas décadas de “exílio”, para receber dois prêmios honorários.
– Jovens anti-Castro interrompem o primeiro festival de cinema cubano em Nova York.
– Em Paris, a sala Gaumont Palace, construída em 1911 e com mais de 6.000 lugares, fecha as portas e dá lugar a um centro comercial e a um hotel.
– A Johannesburg Film Society deixa de atribuir o prêmio para o melhor filme porque a censura do governo sul-africano impede a exibição dos melhores filmes.
» 1973
– A Metro-Goldwyn-Mayer anúncia que vai começar a distribuir os seus filmes através da United Artists.
– Como forma de demonstrar o seu apoio aos índios americanos, Marlon Brandon faz-se representar na cerimônia do Oscars deste ano pela apache Sacheen Little Feather, que lê o seu discurso de rejeição ao Oscar de melhor ator pelo filme “O Poderoso Chefão”. Posteriormente, vem a saber-se que Little Feather é, na realidade, uma atriz de nome Maria Cruz.
– “O Exorcista” é o primeiro, de uma série de filmes de terror, a ter sucesso junto de público.
– O ator e especialista em artes marciais, Bruce Lee, morre misteriosamente, numa altura em que os seus filmes tornam o gênero bastante popular.
– Um tribunal italiano considera o realizador Bernardo Bertolucci inocente da acusação de obscenidade no seu filme “O Último Tango em Paris”.
– Em Cannes, o realizador Marco Ferreri é acusado de mau gosto devido ao seu filme “A Comilança”, sobre pessoas que se comem umas às outras até à morte.
» 1974
– Os lucros da Metro-Goldwyn-Mayer aumentam graças ao seu hotel/cassino de Las Vegas, deixando para segundo plano as atividades cinematográficas do grupo.
– Julia Phillips é a primeira mulher a receber um Oscar como produtora, quando “Golpe de Mestre” vence o prêmio de melhor filme desse ano.
– Pela primeira vez, dois estúdios (Warner Bros. e 20th Century Fox) juntam-se para produzir, em conjunto, um filme (Inferno na Torre).
– “O Massacre da Serra Elétrica”, de Tobe Hooper, torna-se um filme de culto e reflete a nova cultura de violência cinematográfica que geraria outros exemplares, como “Quadrilha de Sádicos”, de Wes Craven, e os filmes dirigidos por Sam Peckinpah.
– Seguindo o exemplo francês, o México abre uma cinemateca nacional.
– O filme “Siddhartha” gera controvérsia no Festival de Cinema da Índia devido a uma cena de nu.
– Kathleen Nolan é a primeira mulher a ser eleita para a presidência do Screen Actors Guild (sindicato dos atores de cinema e televisão).
» 1975
– A Sony dá a conhecer o Betamax, um sistema de vídeo caseiro que custa cerca de $2.000 dólares.
– Dalton Trumbo, argumentista na Lista Negra do Comité de Investigação de Atividades Anti-Americanas, recebe, finalmente, o Oscar para melhor argumento ganho 20 anos antes pelo seu trabalho em “The Brave One”.
– O filme “Tubarão”, de Steven Spielberg, inicia uma nova forma de marketing cinematográfico ao utilizar massivamente anúncios televisivos e ao estrear em um número de salas sem precedentes.
– França inicia a atribuição de prêmios nacionais de cinema, designados por Césares.
– O governo francês deixa de subsidiar filmes classificados para adultos.
– O realizador Pier Paolo Pasolini é assassinado em Bolonha.
» 1976
– Os Estados Unidos assistem ao declínio do drive-in, com o desaparecimento de mais de 1000 telões em duas décadas.
– A Paramount Pictures anuncia que vai distribuir filmes no formato Betamax.
– “Rocky” é o primeiro filme a utilizar o sistema Steadicam.
– Francis Ford Coppola roda “Apocalypse Now” nas Filipinas. Com uma duração de dois anos, a filmagem é assolada por problemas, entre eles: um tufão, um ataque cardíaco do ator principal e conflitos provocados por Marlon Brando.
– “E o Vento Levou”, transmitido pela primeira vez na televisão nos Estados Unidos, em duas noites consecutivas, bate recordes de audiência.
– A Grã-Bretanha impõe um imposto de 75% das receitas mundiais de um filme a produtores estrangeiros que vivam no país.
– Um tribunal italiano considera “O Último Tango em Paris” obsceno e declara que todas as pessoas envolvidas na sua produção, incluindo Marlon Brando, podem ser presas.
– O realizador sueco Ingmar Bergman é preso por invasão fiscal e sofre um esgotamento nervoso.
– O filme de Nagisa Oshima “O Império dos Sentidos”, sobre sexo obsessivo, é banido no Japão e nos Estados Unidos.
» 1977
– Exibido num grande número de salas, “Guerra nas Estrelas” arrecada 127 milhões de dólares de receita e mais de 2 bilhões e meio em merchandising. O sucesso do filme estabelece, também, o sistema de som Dolby como standart.
– A 20th Century Fox inicia a comercialização de filmes em vídeo cassetes.
– A atriz Bette Davis é a primeira a receber o prêmio de carreira do American Film Institute.
– O realizador Francis Ford Coppola é obrigado a penhorar a sua casa para arranjar dinheiro para acabar o filme “Apocalypse Now”.
– As roupas de homem que a atriz Diane Keaton usa no filme “Annie Hall” iniciam uma nova moda.
– O realizador Claude Autant-Lara culpa publicamente a Nouvelle Vague pelo decréscimo de espectadores dos filmes franceses.
– Com a morte do ditador Franco, a Espanha acaba com a censura, possibilitando a exibição do filme “Viridiana”, que Luis Bunuel realizou em 1961.
» 1978
– Hollywood vê a sua produção diminuir com apenas 354 filmes exibidos, contrastando com os 560 do ano anterior.
– Hollywood sente o futuro da exibição de filmes ameaçado perante o crescimento da popularidade do vídeo.
– Três executivos da United Artists demitem-se e formam a Orion Pictures.
– O discurso de Vanessa Redgrave, a favor da Palestina, na aceitação do Oscar para melhor atriz secundária, levanta muitos protestos. Três meses depois, uma bomba explode num cinema de Los Angeles, onde é exibido o documentário “The Palestinian”.
– Um dia antes de ouvir a sentença do tribunal num caso de corrupção de menores, o realizador Roman Polanski foge para França.
– Canadá bane “Pretty Baby”, o primeiro filme em língua inglesa do francês Louis Malle e onde Brooke Shields interpreta uma prostituta de 12 anos.
– Ingmar Bergman regressa à Suécia e ai realiza “Sonata de Outono”, o primeiro filme do realizador na sua terra natal em quatro décadas.
– Muito embora a sua reputação mundial, o realizador indiano Satyasit Ray tem dificuldade em encontrar um distribuidor para o seu filme “Shatranj Ke Khilari”.
– A censura indiana permite beijos nos filmes.
– Com o fim da revolução cultural na China, a Academia de Cinema de Beijing reabre as suas portas.
» 1979
– Nos Estados Unidos, homossexuais protestam contra o filme de William Friedkin, “Cruising”, sobre homossexualidade sadomasoquista.
– Com o filme “Mulher Nota 10”, do realizador Blake Edwards, a atriz Bo Derek torna-se um símbolo sexual e a sua imagem está espalhada por todo os lados.
– Alan Ladd, Jr. demite-se do seu cargo de gestor da 20th Century Fox e torna-se num produtor independente. A sua demissão, contra a gestão por objetivos defendida pela administração do estúdio, simboliza o choque entre a velha e a nova Hollywood.
– É inaugurado, em Toronto (Canadá), o maior complexo de cinema do mundo, com 18 salas.
– Países comunistas abandonam o Festival de Cinema da Alemanha Ocidental em protesto contra a exibição do filme “O Franco Atirador”, que dá uma visão sádica e brutal dos norte-vietnamitas durante a guerra do Vietnam.
– O produtor Carlo Ponti, marido da atriz Sophia Loren, enfrenta acusações de tráfego ilegal de moedas e obras de arte.

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