A História do Cinema – Parte 7

A HISTÓRIA DO CINEMA – PARTE 7

1950 – 1959: A NOVA ONDA

A década de 50 é marcada pelo acentuar das mudanças provocadas pela II Grande Guerra e revela-se propícia para o desenvolvimento de uma nova mentalidade cinematográfica. Se na Europa tentava-se reconstruir cinematografias com a ajuda do Estado, no outro lado do Atlântico a industria cinematográfica enfrentava o Estado, nomeadamente nas investigações do Comité de Investigação de Atividades Anti-Americanas e na decisão do Supremo Tribunal a obrigar os estúdios de Hollywood a desfazerem-se das suas salas de cinema.

Iniciadas em 1948, as investigações do Comité ganharam um novo fôlego quando, em 1951, elementos dos Dez de Hollywood denunciaram vários outros profissionais. Como resultado, o Comitê suspendeu dezenas de profissionais que só voltariam a trabalhar livremente no final da década.

A venda das salas de cinema que possuíam levou os estúdios a procurarem outras fontes de receitas e o aparecimento da televisão foi, ao mesmo tempo, uma bênção e uma dor de cabeça. Se por um lado, a televisão “roubou” espectadores às salas de cinema, também permitiu aos estúdios ganharem dinheiro com a venda de filmes para a pequena tela e alguns aproveitaram as suas estruturas para produzirem conteúdos televisivos.

Para combater a fuga de espectadores das salas de cinema, os estúdios começaram a apostar em avanços tecnológicos como os filmes em três dimensões e sistemas de projeção de grande formato. Se os filmes em três dimensões, que necessitavam de uns óculos especiais para serem apreciados, não passaram de uma curiosidade, já os sistemas de projeção de grande formato, como o CinemaScope, contribuíram para o surgimento do cinema espetáculo. Assim, chegam à grande tela filmes como “Os 10 Mandamentos”, “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, “Cantando na Chuva” e “Sinfonia em Paris”: verdadeiros acontecimentos cinematográficos que marcaram a década e são, ainda hoje, marcos da história da sétima arte. Mas dos estúdios não saíam apenas filmes espetaculares e obras como “Sindicato de Ladrões” e “High Noon”, e refletem uma sensibilidade mais realista e influenciada pelo pós-guerra.

Após anos de quase obscuridão, a Europa vê as suas cinematografias se recuperarem e a década de 50 revelou-se bastante criativa e marcou uma ruptura com o passado. A França lidera essa mudança com o surgimento, no final da década, da Nouvelle Vague. Tendo por base uma visão cinematográfica mais livre e realista, onde o realizador é o autor da obra cinematográfica, o movimento deu a conhecer realizadores como François Truffaut, Alain Resnais, Jean-Luc Godard, Roger Vadim, entre outros. Grande parte destes realizadores começou as suas carreiras na revista Cahiers du Cinéma e os seus trabalhos, como “Hiroshima, mon Amor”, “E Deus Criou a Mulher”, entre outros, refletem a própria sociedade em que vivem, muito longe da fantasia importada de Hollywood.

À semelhança do que se passava na França, também o cinema italiano sofre uma transformação graças a realizadores como Michelangelo Antonioni, Bernardo Bertolucci e Federico Fellini, cujos trabalhos reinventaram o cinema italiano, dando-lhe uma projeção internacional.

Na Suécia, o realizador Ingmar Bergman tem uma das suas décadas mais produtivas realizando “Morangos Silvestres” e “O Sétimo Selo”, que e o consagraram internacionalmente.

Cronologia dos Principais Acontecimentos Ligados ao Cinema, até 1959:
» 1950
– A Warner Bros., a Lowe’s, a RKO Radio Pictures e a 20th Century Fox são obrigadas a venderem as suas salas de cinema.
– “A Ilha do Tesouro” é o primeiro longa-metragem de ação (não-animada) dos estúdios Disney.
– Sob o comando do produtor Arthur Freed, os musicais da Metro-Goldwyn-Mayer atingem o ponto alto durante a década.
– O western é outro gênero cinematográfico em alta durante a década, destacando-se obras de realizadores como John Ford, Howard Hawks, Anthony Mann, entre outros.
– A França produz, durante a década, uma média de 110 filmes por ano.
– Devido à escassez de fundos e a uma política restritiva, os filmes da Alemanha Ocidental são, durante os anos 50, muito limitados a nível criativo.
– São criadas, no Japão, duas novas produtoras: Shin-Toho e a Toei.
– Refletindo o período pós-independência que o país vive durante os anos 50, os melodramas são muito populares na Índia.
– O México produz, durante os primeiros anos da década, uma média de 150 longas-metragens por ano.
– O governo inglês cria um fundo de apoio à produção cinematográfica, mas sem grande sucesso.
– Até à morte de Joseph Stalin, em 1953, a produção russa é dominada por filmes anti-ocidente.
– Muito embora um alto imposto sobre o entretenimento, que limita a produção cinematográfica, a Suécia distingue-se, durante a década, por dramas domésticos, nomeadamente os realizados por Ingmar Bergman.
» 1951
– O Comité de Investigação de Atividades Anti-Americanas continua as suas investigações contra alegados comunistas, usufruindo das denúncias de membros da comunidade cinematográfica sobre colegas.
– Deixa de ser utilizada película à base de nitrato de celulose, uma vez que a sua instabilidade provocou a destruição de metade dos filmes produzidos nos EUA.
– O Código de Produção, que rege a produção dos estúdios de Hollywood, passa a incluir as drogas e o aborto como temas proibidos.
– Louis B. Mayer demite-se da chefia da Metro-Goldwyn-Mayer.
– Marilyn Monroe assina um contrato de longa duração com a 20th Century Fox.
– Maurice Chevalier é proibido de entrar nos EUA devido a um suposto apoio a grupos comunistas.
– É testada, em Chicago, uma versão de televisão paga, cujos clientes tinham direito a ver filmes novos.
– A Columbia Pictures cria a Screen Gems para produzir programas de televisão.
– Os jornalistas André Bazin e Jacques Doniol-Valcroze criam, na França, a revista Cahiers du Cinéma.
– “Rashmon”, de Akira Kurosawa, ganha o principal prêmio do Festival de Veneza e relança a indústria cinematográfica japonesa.
» 1952
– Nos EUA, o número de espectadores atinge o valor mínimo de 51 milhões contra os 90 milhões em 1948.
– Os estúdios americanos tentam combater a ameaça da televisão com “truques tecnológicos” como os filmes em três dimensões e o processo de tela de grande formato: “Bwana Devil” foi o primeiro filme em 3D e necessitava de óculos especiais para ser apreciado; “This is Cinerama” foi o primeiro filme a utilizar a nova tecnologia desenvolvida pela Paramount Pictures, tendo arrecadado 32 milhões de dólares aquando da sua (limitada) estreia.
– A Warner Bros. e a 20th Century Fox abandonam a produção de filmes B.
– Nas audiências do Comité de Investigação de Atividade Anti-Americanas, o realizador Elian Kazan revela que ele e o escritor Clifford Odets são comunistas.
– A popularidade de Marilyn Monroe aumenta após aparecer nua num calendário e de ser tema de capa da revista “Life”.
– James Stewart é um dos primeiros atores a receber parte dos lucros de um filme.
– No Canada, a região do Quebec é a única com produção cinematográfica consistente durante a década.
– A vida contemporânea e problemas pessoais são temáticas recorrentes na produção cinematográfica da Alemanha Ocidental desde o início da década.
– Com a revolução nacional, ocorrida neste ano, os filmes egípcios refletem a realidade social.
» 1953
– O CinemaScope faz a sua estreia com o épico bíblico “The Robe”, sendo anunciado como “o milagre do entretenimento moderno que pode ser visto sem o uso de óculos”.
– A cerimônia de atribuição dos Oscars é transmitida pela primeira vez através da televisão.
– Marilyn Monroe é tema de capa e das páginas centrais da revista Playboy.
– A Associação de argumentistas permite que os nomes de profissionais suspeitos de atividades comunistas sejam retirados da ficha técnica dos filmes.
– A co-produção de filmes entre os Estados Unidos e países europeus torna-se uma prática comum durante a década.
– O cinema italiano renasce do declínio do neo-realismo graças ao trabalho de realizadores como Federico Fellini, Roberto Rossellini e Michelangelo Antonioni.
» 1954
– Howard Hughes adquire a totalidade das ações da RKO Radio Pictures e torna-se o primeiro particular a deter a totalidade de um estúdio de cinema.
– A RKO vende a sua coleção de filmes a canais de televisão e, nos anos seguintes, outros estúdios seguem o mesmo caminho.
– Os filmes ingleses provenientes dos estúdios Ealing, Korda e Rank são os primeiros a passarem na televisão americana.
– Num artigo da revista Cahiers du Cinéma, o crítico francês François Truffaut introduz o termo “política de autor” e altera a perspectiva como é vista a crítica cinematográfica.
– O primeiro filme da trilogia “Pokolenie”, de Andrzej Wajda, dá ínicio à revitalização do cinema polaco.
– Após a morte de Stalin, a União Soviética começa a produzir mais filmes de caráter humanista.
» 1955
– James Dean morre num acidente de automóvel, pouco depois de ter rodado o seu terceiro filme, “Assim Caminha a Humanidade”.
– A Warner Bros. começa a produzir programas de televisão.
– A Columbia Pictures aluga os direitos sobre os seus filmes produzidos antes de 1948 a canais de televisão.
– Charlie Chaplin vende as ações que detinha na United Artists. Mary Pickford, uma das fundadoras do estúdio conjuntamente com Chaplin, tenta adquiri-las, mas é ultrapassada por Samuel Goldwyn.
– O estúdio inglês Ealing fecha as suas portas.
– Satyajit Ray estreia “Pather Panchali”, o primeiro filme da trilogia Apu.
» 1956
– Daryl Zanuck abandona a 20th Century Fox e torna-se um produtor independente.
– As restrições do Código de Produção sobre o aborto e outros assuntos sensíveis tornam-se menos apertadas.
– A Warner Bros. vende os seus filmes produzidos até 1950 a um grupo de investidores.
– A nomeação de Michael Wilson para o Oscar de melhor argumento pelo filme Sublime Tentação é proibida porque o argumentista recusou colaborar com o Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas e estava na lista negra.
– O noticiário (newsreel) da Warner-Pathé deixa de ser produzido, vítima da televisão.
– Na Grã-Bretanha, o movimento contra o sistema, designado por Cinema Livre, é liderado por jovens realizadores como Lindsay Anderson e Tony Richardson.
» 1957
– O ator Humphrey Bogart e o antigo responsável pela Metro-Goldwyn-Mayer, Louis B. Mayer, morrem.
– A RKO Radio Pictures e a Republic Films abandonam a produção cinematográfica e dedicam-se à produção para televisão.
– A Universal Films aluga os seus filmes a canais de televisão.
– A Paramount Pictures abandona a produção do seu serviço noticioso (newsreel).
– Tem início o primeiro festival internacional de cinema dos Estados Unidos: O Festival de Cinema de São Francisco.
– A United Artists se recupera da crise em que se encontrava graças ao trabalho de realizadores independentes como Otto Preminger e Stanley Kramer.
– Na França, o fundador da revista Cahiers du Cinéma, André Bazin, apoia a teoria “cinema de autor”, que defende o realizador como “autor” do filme.
» 1958
– A Paramount Pictures vende os direitos sobre os seus filmes produzidos antes de 1948 à MCA, sendo o último dos grandes estúdio a fazê-lo.
– A Paramount permite que produtores independentes utilizem os seus estúdios.
– Como golpe publicitário para o seu filme “Macabre”, o produtor William Castle faz um seguro de mil dólares contra o risco de alguém morrer de susto.
– É revelado que um dos dois argumentistas que ganharam o Oscar para melhor argumento pelo filme “The Defiant Ones” é Nedrick Young, que estava na lista negra do Comitê de Investigação de Atividades Anti-americanas.
– Colaboradores da revista Cahiers du Cinéma, entre outros criam o movimento Nouvelle Vague. Os realizadores Claude Chabrol e François Truffaut destacam-se como “praticantes” do movimento.
– Na França, o eleito presidente da república, Charles De Gaulle, cria um programa governamental de apoio à produção cinematográfica.
– A produtora inglesa Hammer Films alcança sucesso graças aos seus filmes de terror.
» 1959
– Os filmes da Nouvelle Vague, entre eles “Os Incompreendidos” e “Hiroshima, Mon Amor”, revigoram o cinema francês e ganham reconhecimento internacional.
– Nos Estados Unidos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas volta a permitir a nomeação de profissionais que estavam na lista negra do Comitê de Investigação de Atividades Anti-Americanas.
– O presidente soviético Nikita Khruschev visita Hollywood e com desagrado assiste ao filme “Can-Can”.
– Os filmes de Elizabeth Taylor são proibidos no Egito, após a atriz ter participado na angariação de fundos a favor de Israel.
– John Wayne é acusado pelo Governo do Panamá de interferir na política do país após ter pago meio milhão de dólares ao ativista Roberto Arias.
– A Janus Films torna-se uma distribuidora de sucesso de filmes estrangeiros nos Estados Unidos com os filmes de Ingmar Bergman.
– “Hércules” é o primeiro de uma série de filmes italianos dublado em inglês a ter sucesso nos Estados Unidos.
– O preço dos bilhetes de cinema nos Estados Unidos desce ao longo da década como forma de combater a televisão.

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