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Filmes: Vento e Areia (1928)

windVENTO E AREIA

Título Original: The Wind
Ano: 1928
País: Estados Unidos
Duração: 95 min.
Direção: Victor Seastrom
Elenco: Lillian Gish, Lars Hanson, Montagu Love, Dorothy Cumming, Edward Earle, William Orlamond, Carmencita Johnson, Leon Janney, Billy Kent Schaefer.
Sinopse:
A inocente Letty deixa seu lar na Virginia em direção ao Oeste selvagem, para morar no rancho de seu primo Beverly, a esposa dele Cora e seus três filhos. Aos poucos, ela percebe o quanto aquele lugar é inóspito a começar pelos fortes ventos, que açoitam as paisagens áridas levantando turbilhões de areia de forma incessante. Cora acredita que Letty está querendo roubar seu marido, e a obriga a se casar com Lige, um homem que ela não ama. Aos poucos, Letty, isolada e acuada, sente que está à beira de enlouquecer.

Nascido na Suécia, Victor Sjöstrom adotou o sobrenome Seastrom quando chegou a Hollywood em 1924. Ele já havia dirigido Lilian Gish em “A Letra Escarlate”, em 1926, e teve a chance de trabalhar com ela novamente nessa adaptação da novela de Dorothy Scarborough, com roteiro de Frances Marion. “Vento e Areia” repete praticamente a mesma equipe de “A Letra Escarlate”, incluindo o ator também sueco Lars Hanson, a roteirista Frances Marion e o diretor de arte Cedric Gibbons. A despeito do todos os esforços do estúdio MGM, que chegou a incluir um final feliz quando as sessões de testes mostraram a reação negativa do público ao final original em que a personagem de Lillian Gish vaga sozinha em meio ao deserto provavelmente rumo à morte e dos talentos envolvidos na sua realização, “Vento e Areia” foi um fracasso de público e de crítica.

Mas isso porque desde o início, o filme esteve muito a frente de seu tempo. Mesmo tendo sido realizado no final da era silenciosa, “Vento e Areia” já utilizava efeitos sonoros para ampliar a experiência sensorial imaginada pelo diretor, que realizou um formidável trabalho psicológico ao transformar essa grande força da natureza no personagem principal da história. O vento que castiga a região de Sweet Water e leva Letty à beira da loucura, distende o tempo da história e amplifica o potencial dramático quando os exteriores se tornam tão claustrofóbicos pela impossibilidade de visão em meio à tempestade de areia, quanto o são as cenas passadas dentro da cabana onde Letty se isola e sofre o assédio de um dos empregados do marido.

wind-11Lillian Gish está magnífica. O que pode ser visto hoje como “overaction” para aqueles acostumados ao falatório dos filmes modernos, se transforma diante das telas em uma das atuações mais arrebatadoras do cinema. Lillian permite ao público compreender a exata dimensão dos temores e dos sentimentos confusos que afligem sua personagem. A princípio frágil e amedrontada, Letty ganha força ao mesmo tempo em que o vento se torna cada vez mais ameaçador. Ela se mostra capaz de superar não só o medo do vento e o trauma surgido quando precisou defender a própria honra, como se tornou uma mulher forte mas capaz de se entregar à possibilidade de um romance.

Lars Hanson, que já havia contracenado com Lillian Gish em “A Letra Escarlate”, mais uma vez não precisou enfrentar problemas com o idioma inglês – afinal, “Vento e Areia” ainda era um filme mudo. Desde o primeiro momento em que seus personagens se casam, o público é levado a não simpatizar com Lige. Hanson consegue ao mesmo tempo justificar a forma como Letty a princípio o despreza – a cena da noite de núpcias é uma das melhores cenas do filme – como acaba conquistando a simpatia do público próximo ao final.

Realizado em locações em pleno deserto do Mojave, na Califórnia, a temperatura durante as filmagens chegava a 48 graus Celsius durante o dia, tornando o trabalho dos atores e técnicos um verdadeiro inferno. Os rolos de filme eram mantidos em estojos com gelo para que não se deformassem e o calor intenso fez uma maçaneta esquentar tanto que ao tocá-la para abrir a porta, a atriz Lillian Gish teve a mão queimada gravemente e a pele da palma imediatamente escaldada.

O diretor Seastrom conseguiu sem muitos recursos técnicos realizar cenas impressionantes como a chegada de um ciclone à cidade, e ao mesmo tempo atingiu um grande efeito dramático e uma situação bastante realista quando colocou as forças da natureza como deflagradoras das paixões e dos conflitos humanos. Seastrom trabalhou habilmente os poucos efeitos sonoros para ampliar a experiência sensorial do público e utilizou alguns simbolismos para expressar o aspecto psicológico da personagem de Letty, como os cavalos selvagens.

Os filmes de Seastrom eram tão vanguardistas que serviriam de inspiração para seu compatriota Ingmar Bergman durante toda a sua vida. Bergman chegou a declarar que não ficava mais de um ano sem rever “A Carruagem Fantasma”, que Seastrom dirigiu ainda em seu país natal, em 1921. Com “Vento e Areia”, Seastrom finalmente alcançou o seu maior momento como cineasta, bem como conseguiu de Lillian Gish a sua melhor atuação, mesmo para uma carreira tão longa quanto a dela, que só terminou com a morte da atriz, em 1993, aos 99 anos. O último filme em que Lillian Gish atuou foi “As Baleias de Agosto”, de 1987.

Para obter o efeito do vento soprando forte 24 horas sem parar, a equipe de produção utilizou oito aviões estacionados no meio do deserto com os motores ligados o tempo todo. O barulho das hélices e o o vento provocado por elas misturado à areia, ao ar quente e à fumaça eram tão perigosos que os membros da equipe técnica foram forçados a usar pesadas roupas de mangas compridas – em uma temperatura média de mais de 45 graus -, além de óculos de proteção, bandanas em volta do pescoço e tinta especial em torno dos olhos durante as filmagens.

lillian gish the wind 7A atriz Lillian Gish durante as filmagens de “Vento e Areia”, além do vento e da areia soprados contra eles pelas hélices de oito aviões, a equipe de produção enfrentou temperaturas médias de mais de 45 graus em pleno deserto do Mojave.

Não importa muito se o final alterado parece ser forçado – e realmente é, em uma tentativa do estúdio de agradar o público que rejeitou a trágica versão original. “Vento e Areia” é um filme que precisou de algumas décadas depois de seu lançamento para provar todos os seus méritos. O tempo, mais uma vez, fez justiça a uma das maiores obras-primas do cinema. O último grande filme do período silencioso. Em 1983, o filme sofreu uma restauração por Kevin Brownlow com adição de uma nova trilha sonora composta por Carl Davis.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0019585/.

Download “Vento e Areia” AVI 555 MB/408 MB*:

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Galeria de Imagens:

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Greta Garbo e a Duquesa de Langeais

two-faced womenGreta Garbo em “Duas Vezes Meu”, dirigido por George Cukor em 1941. Depois desse filme, Greta Garbo nunca mais seria vista novamente nas telas de cinema.

Desde sua última aparição nas telas em “Duas Vezes Meu” (Two-Faced Woman), Greta Garbo foi diversas vezes procurada pelos estúdios para um possível retorno aos filmes. De todas as ofertas que a diva sueca recebeu e rejeitou, apenas uma esteve muito próxima de se transformar em realidade. Em 1948, a atriz chegou a assinar um contrato para estrelar um filme produzido por Walter Wanger após decidirem que a novela de Honoré de Balzac “A Duquesa de Langeais” (La Duchesse de Langeais, de 1834) seria o veículo perfeito para o retorno de Greta Garbo ao cinema.

Mas Wanger queria filmar na Itália, e chegou a assinar com o ator James Mason para que co-estrelasse o filme. Porém, vários problemas de produção detiveram o início das filmagens. Por conta disso, os principais investidores abandonaram o projeto e o filme foi interrompido várias vezes. Apesar de Wanger ter tentado reiniciar a produção em fevereiro de 1950, ele esbarrou na perda de interesse de Garbo, que retornou a Nova York. Ela continuou recebendo ofertas para voltar, mas nenhuma esteve tão perto de se tornar realidade quanto “A Duquesa de Langeais”.

“Garbo’s Back!”

Walter Wanger, um produtor norte-americano que já havia trabalhado com Garbo no passado (ele produziu “Rainha Cristina” para a MGM em 1933), queria ter a certeza de que o primeiro filme de sua nova produtora, a Walter Wanger International Productions, em sociedade com Eugene Frenke, fosse um grande sucesso de público e de crítica, e nada melhor do que um romance de época que marcasse o retorno da lenda viva Greta Garbo.

A estrela sueca confiava em Wanger e aceitou se encontrar com ele no começo de 1948. Garbo ficou realmente empolgada com a produção e assinou um contrato de um único filme. Foi o primeiro contrato para um filme que ela assinou desde 1940. Mas o romance de Balzac não foi a primeira ideia de roteiro para o novo filme de Garbo. Salka Viertel, atriz, roteirista e amiga pessoal de Garbo, sugeriu uma adaptação da vida da escritora George Sand. Wanger adorou a ideia para o filme, que seria rodado na França, com roteiro escrito por Viertel. Na França, Wanger conseguiu investidores para o filme. Todos queriam que Garbo filmasse na França e Garbo amava a França também.

O primeiro nome escolhido para a direção foi o de G.W. Pabst, o grande cineasta austríaco que já havia dirigido Garbo em seu começo de carreira na Alemanha ainda no período silencioso, “Rua de Lágrimas” (A Joyless Street, de 1925). Mas Pabst não se interessou pela proposta apresentada. Ele queria filmar uma adaptação de Ulisses, onde Garbo viveria um papel-duplo, como Circe e Penélope. Frenke, sócio de Wanger, não concordou porque Pabst tinha má fama na França, e seu nome poderia afastar os possíveis investidores.

O roteiro de “George Sand” escrito por Salka Viertel também não agradou. Ao lado com outros problemas de produção, Wanger reconheceu que seria um grande erro prosseguir com ele e o roteiro foi descartado definitivamente. Ele havia comprado os direitos de filmagem da novela de Balzac, “La Duchesse de Langeais”, e apresentou a ideia de Garbo interpretar a personagem do título. O romance já havia sido transformado em filme em 1922 “The Eternal Flame”, dirigido por Frank Lloyd e estrelado por  Norma Talmadge, e em 1942, produzido na França e dirigido por Jacques de Barobcelli, com Edwige Feuillere como a trágica Duquesa.

garbo-howe-screen-testGreta Garbo sorri no teste de tela que foi obrigada a fazer em 1949 para estrelar “A Duquesa de Langeais”, que marcaria o seu retorno às telas de cinema.

A possibilidade de interpretar a heroína Antoinette de Navarreins da novela de Balzac interessou a Greta Garbo por conta dos temas de romance, vingança e redenção. Além disso, Garbo tinha admiração pela atriz Edwige Feuillere. Wanger arranjou uma apresentação particular do filme em Paris para que Garbo tivesse uma clara ideia de como ela poderia atuar e para se familiarizar um pouco mais com aquela personagem trágica.

A produção finalmente iria começar, com Garbo assinando uma carta aceitando os termos para atuar no filme da Wanger International em 15 de março de 1949. Wanger decidiu rodar na Itália por considerar mais fácil conseguir novos investidores e poder usar as instalações dos estúdios da Cinecittá a um custo muito inferior do que se filmasse na França ou em qualquer outro país.

Outro fator que foi decisivo para Wanger mudar sua produção para a Itália vinha por conta do interesse de Angelo Rizzoli, publicitário italiano e principal responsável por Wanger e Frenke terem conseguido os investidores de que eles precisavam, e com o qual formaram uma parceria para gerenciar os custos e dividir os lucros com o filme. A pós-produção e montagem seriam feitas na Inglaterra, com algumas cenas rodadas nos arredores de Paris. O custo com essas cenas seriam pagos com o dinheiro de outros investidores, os Rothschild, amigos pessoais de Garbo.

Os testes de tela

Greta Garbo chegou em Roma em abril de 1949 com seu companheiro e gerente pessoal George Schlee com a missão de se encontrar com os investidores italianos e usar de todo o charme para convencê-los a investir em seu filme. Uma estratégia que ela nunca precisou utilizar antes. Após o primeiro encontro no hotel, nenhum investidor estava satisfeito pelo fato de Garbo ter usado um grande chapéu que escondia seu rosto. Eles acharam que ela estava escondendo cicatrizes ou sinais de velhice, e decidiram não assinar os cheques até que vissem um teste de tela com Garbo.

Valentine01Quem em são consciência poderia imaginar Garbo em um teste de tela? Aquilo era um insulto. Garbo ainda era Garbo, mas não havia outra saída. Pelo menos três testes de tela foram realizados durante a pré-produção de “A Duquesa de Langeais”. O primeiro teste foi realizado em 5 de Maio de 1949 nos estúdios da Universal por Joseph Valentine, que havia feito um trabalho maravilhoso iluminando Joan Crawford em “Fogueira de Paixões” (Posessed), de 1947, e Ingrid Bergman em “Joana D’Arc”, de 1948.

Valentine filmou cerca de 23 minutos de filme em preto-e-branco. Garbo contou que estava apavorada mas os resultados foram  impressionantes e certamente agradariam os investidores. Valentine, então com 84 anos, foi contratado como diretor de fotografia, mas logo após ter realizado o teste, ele ficou gravemente doente e morreu pouco tempo depois.

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Wanger chamou dois dos melhores cinegrafistas da época: William Daniels e James Wong Howe para realizarem mais testes de tela com fotografia em preto-e-branco.

Howe01Em 25 de Maio, Garbo chegou aos estúdios da United Artists em Hollywood para seu teste de tela com o cinegrafista James Wong Howe. Garbo usava um grande chapéu de palha, um par de calças e uma blusa branca, e distribuía sorrisos. Ela foi para o camarim e 45 minutos depois apareceu no palco maquiada e com o cabelo preso, vestindo uma jaqueta xadrez e um lenço preto. Enquanto Howe analisava como iria montar as luzes e compor a fotografia, Garbo perguntou se poderia fumar um cigarro. Howe consentiu, e a atriz colocou um cigarro em sua piteira. Howe ligou sua câmera e o rosto de Garbo ganhou vida. Cerca de uma hora depois, Garbo se virou para ele: “Suficiente agora?”

Howe concordou. “Bom”, disse ela, “eu acho que vou para casa.”

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Daniels01Algumas horas depois, porém, Garbo se encontrou com William Daniels nos estúdios da Universal, para a qual Daniels trabalhava. Lá ela fez seu terceiro teste de tela. Garbo sentia-se um pouco tímida e temerosa de como ela poderia aparentar durante o teste, mas feliz por reencontrar seu antigo cameraman. Daniels trabalhou com Garbo na maioria de seus filmes na MGM, sendo o primeiro “Terra de Todos” (The Temptress), de 1926, e o último “Ninotcka”, de 1939.

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No dia seguinte, os laboratórios da Pathé em Hollywood revelaram os resultados de ambos os testes. Analisando os testes e as diferenças de estilo, o de Howe aparentava ser mais interessante e ele foi contratado. George Schlee afirmou que haviam sido excelentes e de fato todos eles o foram. Garbo viu os testes e admitiu que ficou muito feliz com os resultados. A grande estrela do cinema ainda não tinha perdido o brilho.

Joseph Valentine’s Screen test:

James Wong Howe’s Screen test:

Os testes acabaram perdidos por quase 40 anos. Em 1989, fragmentos foram encontrados e divulgados para o público após a morte de Greta Garbo em 1990. Conta-se que o teste de Valentine durou cerca de 20 minutos, e os de Howe e Daniels juntos somavam cerca de 13 minutos.

James Mason e Edith Piaf

Investidores convencidos, tudo parecia estar dando certo. Os cenários ficaram prontos em agosto. A principal fotografia foi marcada para começar em setembro de 1949, em Roma, e o lançamento do filme foi planejado para o começo de 1950 para coincidir com o centenário da morte de Balzac. A produção que estava orçada em cerca de 225 mil dólares, porém, acabou subindo para meio milhão de dólares. O salário inicial de Garbo  era 100 mil dólares. Se o filme arrecadasse mais de dois milhões de dólares, ela receberia um adicional de 50 mil mais 15% sobre o lucro.

Wanger teria negociado com grandes estúdios americanos para lançar o filme nos Estados Unidos, entre eles a Columbia Pictures e a RKO, que teria obtido os direitos de distribuição. O apoio do produtor inglês J. Arthur Rank deu a Wanger o apoio financeiro de que ele precisava para poder escalar atores ingleses no filme e realizar a pós-produção na Inglaterra.

La_DuchesseEm 1949, uma revista da Suécia anunciava a volta de Garbo em um filme ao lado de James Mason chamado “Lover and Friend”, distribuído pela RKO Pictures.

Vários atores foram considerados para interpretar o Duque de Langeais, entre eles Errol Flynn, Louis Jourdan, Lawrence Olivier e Robert Cummings. Garbo sugeriu o nome do ator inglês James Mason após tê-lo visto atuar ao lado de Joan Bennett em um filme produzido por Wanger, “Na Teia do Destino” (The Reckless Moment), mas queria conhecê-lo antes. Wanger arranjou um encontro para eles na casa do ator em Berverly Hills. Garbo passou uma tarde agradável na companhia de Mason e sua esposa, sorrindo e brincando no jardim com os filhos do casal.

Anos mais tarde, James Mason lembrou o quanto Garbo estava surpreendente, espontânea, divertida e sorridente. Ele disse que o roteiro do filme não era muito interessante, mas que seria muito interessante para ele atuar ao lado dela. Eles acabaram se tornando amigos, com Garbo visitando o casal Mason algumas vezes depois disso, mas eles nunca conversavam sobre filmes ou sobre o filme que quase fizeram juntos. O salário de Mason seria de 75 mil dólares.

Max Ophuls, que acabaria escolhido para dirigir o filme, pensou em vários atores britânicos para atuar como Armand de Montriveau, entre eles Jack Hawkins,  Frank Allenby,  Geoffrey Keen e Frederick Lester. Ophuls também sugeriu ao produtor Walter Wanger vários outros artistas para compor sua equipe de produção, entre os quais os cenógrafos Jean D’Eaubonne e Leon Barsacq, o técnico de som Joseph de Bretagne, o gerente de produção e assistente de direção Ralph Baum e o editor Michael Luciano.

Sally Benson foi contratada para escrever o roteiro do filme a partir do roteiro original que Frances Marion havia escrito para a versão americana de 1922. O filme ganhou os títulos de “The Duchess Of Langelais” na Inglaterra e “Lover and Friend” na América. Benson tinha escrito os roteiros de “Agora Seremos Felizes” (Meet Me in St. Louis), estrelado por Judy Garland, de 1944, e “A Sombra de uma Dúvida” (Shadow of a Doubt), de Alfred Hitchcock, mas o primeiro esboço de roteiro para “The Duchess” não agradou Wanger. Diziam que Benson tinha problemas com bebida e era negligente no trabalho, e apesar das revisões que fez no roteiro, Wanger pediu a Ophuls que o terminasse.

Wanger teve a ideia de inserir uma canção de Edith Piaf na história. Havia no roteiro duas cenas que se passavam em um café do século 19 e que mostravam uma cantora desiludida do mundo que na opinião de Wanger seria perfeita para ser vivida pela própria Edith Piaf.

Garbo em Technicolor

George Cukor foi a primeira escolha para dirigir o filme que marcaria o retorno de Greta Garbo. Ele tinha sido o responsável pelo último filme dela em Hollywood, “Duas Vezes Meu”, que dirigiu em 1941. Infelizmente, pouco antes ele havia assinado com a MGM para dirigir Katharine Hepburn em “A Costela de Adão” (Adam’s Rib), e outros diretores foram considerados: Robert Siodmak, Mervyn Leroy, Henry Koster e William Dieterle, além de Curtis Bernhardt, Irving Rapper e Vittorio De Sica. Ao assistirem o grande sucesso da Broadway dirigido por Joshua Logan, “South Pacific”, Garbo e Schlee pensaram que ele seria perfeito para dirigir o filme. Logan, porém, nunca aceitou os termos do contrato e a escolha acabou ficando com o diretor franco-alemão Max Ophuls.

Diziam que o contrato de Garbo garantia que ela atuaria em um filme em preto-e-branco, com base no argumento de que a “mística de Garbo” só se beneficiaria em contrastes de preto, branco e cinza. Mas na verdade não havia essa cláusula no contrato, o que aumentou os rumores de que o filme seria feito em Technicolor e que teria havido pelo menos um teste de tela realizado em cores.

Começam os problemas

Parecia que nada poderia dar errado. Mas deu. O plano financeiro de “A Duquesa” começou a ruir quando o orçamento para o filme fugiu ao controle. A presença de Garbo se tornou imediata na Itália para conseguir os recursos adicionais necessários para a produção começar. Assim que chegou em Roma, em 1º de setembro, Garbo foi cercada pelos paparazzi. Ela teve uma reunião com o produtor Giuseppe Amato, com o publicitário Angelo Rizzoli e outros investidores. Walter Wanger estava em uma importante viagem e não pôde ir ao encontro, crucial para o projeto e um dos dias mais perturbadores de toda a carreira de Greta Garbo.

Garbo percebeu que Amato e Rizzoli queriam que ela sorrisse e flertasse com aquele bando de italianos ricos para os convencer a colocar suas fortunas na conta da produtora. Greta disse que não faria isso. Ela ainda era Greta Garbo e não iria servir de “cavalo de circo” para eles. As coisas rapidamente foram de mal a pior: Amato ficou chocado porque Greta achou que ele tinha arranjado os fotógrafos e informado a imprensa de sua presença ali.

Com os custos de produção nas nuvens e o início das filmagens adiado para outubro, a situação ficou tensa no final de setembro quando os jornais italianos disseram que Rizzoli estava deixando o projeto por conta das exigências impossíveis de Garbo, que ela não queria se comprometer enquanto o filme não estivesse totalmente financiado. Wanger e Frenke queriam se livrar dos italianos mas tinham ido longe demais. Eles sabiam que aquilo tudo era mentira, e que embora Garbo tivesse estabelecido certas cláusulas, ela nunca cogitou em pedir aumento de salário ou abandonar o projeto com a saída dos investidores.

La_Duchesse_fanart_posterPoster criado por um fã para o filme de Greta Garbo que nunca aconteceu.

Quando Max Ophuls e James Wong Howe chegaram em Roma, tudo estava mergulhado no caos. Por sua vez, James Mason se recusou a viajar para a Itália até que os termos sobre seu salário e início das filmagens estivessem definidos. Os produtores cogitaram em contratar Errol Flynn ou Louis Jourdan em seu lugar, e enviaram um telegrama para os agentes de Garbo na América informando sobre a possível mudança de protagonista.

Walter Wanger estava descontente com a lentidão e os custos da produção, e principalmente com a presença de Schlee e as tentativas dele de interferir no processo criativo do filme. Para Wanger, Schlee era uma barreira para o seu contato direto com Garbo e acusou Schlee de fazer duras críticas em relação a presença dos investidores estrangeiros no projeto. Por sua vez, Schlee afirmou que Garbo não aceitaria nem Flynn nem Jourdan atuando ao lado dela.

George_Schlee-3Greta Garbo e George Schlee, que ela conheceu em 1941 e com o qual teve um relacionamento que durou até 1960.

Para piorar, um duro golpe foi a falta de instalações disponíveis para as filmagens. A MGM havia reservado todos os estúdios da Cinecittá para a produção de seu drama épico “Quo Vadis”. Henry Henigson, alto executivo da MGM, chegou a oferecer a Wanger as instalações desde que ele começasse a rodar imediatamente e concluísse as filmagens a tempo do início da produção de seu filme. Sem o apoio de Rizzoli e sem um homem de comando em Roma, isso se tornou impossível.

Sally Benson deu prosseguimento às más notícias quando decidiu processar a Wanger International por quebra de contrato. As mudanças feitas por Max Ophuls no roteiro original de “A Duquesa” levantaram a ira dos moralistas de plantão. O chefe do Código de Produção Joseph Breen informou os produtores que o roteiro de Benson/Ophuls era inaceitável para os padrões da época. Em novembro, Wanger decidiu liberar Ophuls para que realizasse na França aquele que seria considerado um de seus melhores trabalhos: “Conflitos de Amor” (La Ronde), de 1950.

Finalmente, os investidores italianos abandonaram o projeto. Garbo perdeu a fé no filme. Sem dinheiro para o filme, Wanger precisou recomeçar, buscando o apoio de algum grande estúdio de Hollywood. Howard Hughes demonstrou interesse e chegou a ser dito que ele iria investir o meio milhão necessário para salvar a produção, mas como o próprio Hughes estava enfrentando problemas financeiros na época, ele só poderia financiar parte do filme.

Nunca mais um filme de Garbo

Em janeiro de 1950, Wanger convocou uma reunião com a imprensa. Ele anunciou oficialmente o adiamento do filme, dizendo que não culpava Garbo pelo atraso e desmentiu todos os rumores de que ela estava velha demais. Pelo contrário, que Garbo estava agora mais linda do que nunca, ainda mais fluente no inglês e que ela iria encantar mais do que antes no próximo filme que fizesse.

Por sua vez, Garbo confidenciou ao amigo Cecil Beaton, que conheceu em Paris, o tempo enorme que perdeu e que a impediu de realizar outros trabalhos. Garbo afirmou que essas “pessoas de filmes” são muito difíceis de lidar e que elas mentem o tempo todo, e que ainda tinha esperanças de trabalhar no filme no futuro, mas que não era nada agradável trabalhar para pessoas que você não gosta.

Wanger não desistiu do filme. Ele tentou novos financiamentos, inclusive propondo que Garbo atuasse sem salário e investisse seu próprio dinheiro no filme, ficando com a maior parte dos lucros. Nem Garbo nem Schlee ficaram muito interessados, nem os grandes estúdios sondados, como RKO, Paramount, Columbia, Warner e 20th Century Fox. Wanger tentou uma última vez convencer Garbo e escreveu uma carta pessoal para ela em fevereiro de 1950. Mas era o fim. Garbo pediu a liberação de seu contrato e voltou, triste, para Nova York. Ela queria muito ter feito esse filme e o filme esteve realmente muito, muito perto de acontecer.

walter-wanger_39Muito rumores foram ditos na época e acusações foram feitas de todos os lados. Mas os motivos principais porque “A Duquesa de Langeais” nunca foi realizado foi a desistência dos investidores italianos e as diferenças entre Walter Wanger e George Schlee, que nunca se entenderam. Muitos acusaram Schlee de ter sido o responsável pelo fiasco do filme e por conta disso, Greta Garbo nunca mais retornou ao cinema. Nunca se estabeleceu o grau de relacionamento entre Garbo e Schlee, que era casado com Valentina, figurinista de Garbo em Nova York, onde se conheceram em 1941. Schlee tinha uma bem protegida casa na Riviera, conhecida como “Garbo’s house”. Quando ele morreu em 1964, Garbo ficou profundamente chocada. Ela se importava muito com ele e sentiu muito a sua falta até o fim da vida.

Walter Wanger, que começou a carreira no final dos anos 20, ainda era um produtor de sucesso em Hollywood, quando em 1951, levado pelo ciúmes disparou um tiro contra o agente de sua esposa Joan Bennett, Jennings Lang, acusando-os de terem um caso. Entre os filmes mais importantes que produziu posteriormente estão “Vampiros de Alma”, o clássico de ficção-científica dirigido por Don Siegel em 1956, “Quero Viver!”, dirigido por Robert Wise em 1958 e que deu o Oscar de atriz à Susan Hayworth, e a mal fadada produção “Cleópatra”, estrelada por Elizabeth Taylor em 1963. Depois de ter se separado de Joan Bennett em 1965, Wanger faleceria em 1968, aos 74 anos.

A fonte para este artigo está no site www.garboforever.com. Informações adicionais foram obtidas nos sites IMDb e Wikipedia.

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